Se um homem não descobriu nada pelo qual
Morreria, não está pronto para viver.”

Martin Luther King Jr.

O sol despontou no horizonte, rasgando o escuro em tons azulados, em um vazio de nuvens refletido nas águas. O crepúsculo expulsava suavemente a atmosfera melancólica da noite, desvelando a vida que o dia trazia à tona. Um bando de cegonhas brancas já beliscava o solo da planície que cerceava a floresta da riba oposta, relaxando antes da longa jornada em direção ao sul. Ao alto, um falcão-peregrino mergulhava, contrastando sua velocidade com a morosidade das corujas boreais que se entocavam na área mais densa das coníferas. O céu aos poucos tomava conta da paisagem da varanda de pedra, um mirante sublime que se perdia na imensidão da paisagem lacustre.

Poucas coisas na natureza inspiraram tanto a imaginação como o firmamento. A dificuldade de examiná-lo, os fenômenos incompreensíveis e habitantes desconhecidos sempre deslumbraram o homem. Porém, o homem é animal orgulhoso e recusa-se a ser ignorante em qualquer assunto. Ele precisa ser onisciente. O homem precisa mais da onisciência que qualquer divindade. Precisa mais que estar ciente de todos os mistérios do mundo, pois não sabe lidar com a frustração de sua capacidade investigativa limitada, seja individual, seja historicamente.

Já dizia o grande poeta: “O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é”. Se o homem não pode ser onisciente, ele inventa alguém que o é; mas alguém em sua própria homenagem, semelhante em atributos, atitudes e personalidade. Deuses e mais deuses, com os quais possui conexão íntima, seja de amor, amizade, proteção ou servidão. É curioso que o orgulho, provavelmente a característica mais marcante da raça humana, impeça o homem de dizer-se ignorante, nem que para isso seja capaz de gerar a ideia de submissão.

E é aí que a arrogante incapacidade de dizer “não sei” se esconde, e à qual dá-se o nome de fé. Vencido pela incapacidade em explicar tudo à sua volta, o homem volta-se a ela, no desespero em restaurar o orgulho ferido, como uma criança birrenta faz beicinho ao tomar um não dos pais. Porque, com a fé, ele não precisa saber de tudo, mas tem alguém sempre ao lado, que pode tudo e que sabe tudo. E, a partir do momento em que se dá tal poder ao homem, ele, em suas imperfeições, altera, inventa, imagina, cria, distorce e cega. A fé se torna, portanto, a ferramenta mais cruel da vaidade.

Completara o sono de três noites e, pela manhã, já não havia mais vaidade. Nem nada que pudesse sugerir a existência do céu, fosse limpo ou nebuloso, entre aquelas quatro paredes úmidas de blocos de pedra avantajados, sem qualquer saída de ar aparente. No centro do aposento, ela repousava sobre uma cama coberta por um dossel, meticulosamente fiado. No entanto, o véu não parecia funcional como proteção contra insetos, já que as linhas finas de seda eram espaçadas e trançadas poligonalmente para formar uma gigantesca teia decorativa. O par de criados-mudos preto-arroxeados, com pernas compridas e arredondadas, abraçava a cama king size, enquanto luminárias frias acima da cabeceira acendiam parcamente o aposento. Ao pé da cama, um tapete púrpuro de barbante revestia todo o chão até o armário que se escondia na penumbra da parede oposta.

Abriu os olhos devagar. Estava nua, coberta apenas por um edredom que combinava com o carpete incomum. Sentia-se fraca demais para se levantar, mas precisava saber o que havia acontecido. Os músculos estavam doloridos, talvez pelo seu estado combalido, talvez pela inércia inconsciente em que ficara durante sabe-se-lá-quanto tempo. Decidiu levantar o cobertor para examinar seu corpo; estava limpa, imaculada. “Está tudo no lugar, pelo menos.” – pensou. E realmente estava tudo no lugar; não havia marcas, nem sequer as perfurações venais próprias de hospitais. Apenas a mórbida palidez cutânea.

Não, definitivamente não estava em um hospital, fosse em Silent Hill, fosse em uma obra bizarra burtoniana. Um calafrio percorreu a espinha e, rapidamente, verificou os braços mais uma vez – agora com mais esmero –, procurando por qualquer furo pelo qual pudessem ter injetado substâncias dopantes ou alucinógenas. Não encontrou nada. Passou a mão nos cabelos; ainda que desalinhados e amassados, estavam sedosos e escovados. Em que porra de hospital alguém se daria o trabalho de cuidar dos seus cabelos? e Teria sido capturada por algum maníaco? foram seus primeiros pensamentos. Arquejou durante alguns instantes e, quando ia se levantar, a maçaneta girou num clique.

Enrolou-se na coberta com a súbita interrupção da série de paranoias que percorrera sua mente em fração de segundo. Apertou-a com as mãos e encolheu-se. Sentia-se exposta, vulnerável, e não sabia de quê ou de quem estava à mercê. Uma mulher entrou e virou-se para fechar a porta, em silêncio. Apenas quando girou novamente para o quarto foi que notou o medo estampado nos olhos que saltavam do cobertor. Sorriu e caminhou até a cama.

O carmesim da cabeleira retesada para trás destacava os traços crus daquela face sem maquiagem que insistiam debalde, porém sem sucesso, em apagar as órbitas oblongas. Ela deslizou pelo cômodo em sua direção, com os pés nus, despida de qualquer glamour. O sorriso já fugira do semblante, dando espaço aos lábios descontraídos, entreabertos, exalando sensualidade. Inebriou-se, sem licença para matar, naqueles dry martinis que abrigavam olivas rebeldes em suas superfícies. Não sentia mais a ferida em seu pudor. Mamilos sobressaltados fisgavam o tube de cetim que se enrolava nos quadris, abrindo-se em uma saia longa. O vestido permitia uma espiada misteriosa no corpo que cingia, ainda que não revelasse muito mais que a silhueta. Era todo branco, exceto pelo símbolo que parecia ser um tipo de lâmina, como um triskelion tribal cheio de farpas, que pendia lasso, mas atado em sua cintura. Deixou-se embriagar pelo desfile daquela ruiva sem glitter. Quando a mulher sentou na cama, ao seu lado, os dedos já estavam frouxos e o rosto, à mostra.

How are you? Are you feeling better?

Os cabelos estavam presos parcialmente num coque, e escovavam as costas nuas até a altura da cintura, retribuindo o carinho recebido ao terem sido preparados. Percebia, agora mais perto, que ela usava uma gargantilha em tecido que parecia fazer parte do vestido, cobrindo-lhe boa parte do pescoço. Uma gota verde fosca lapidada, quase oculta pelo queixo suave, prendia a tira. Lembrou-se imediatamente de Bram Stoker, e, num flash, imagens de morcegos, estacas e sangue jorrando mostraram-lhe o verdadeiro significado de terror. Imagens gore de um horror que Coppola nunca havia conseguido lhe incutir. Mas o que fazer agora que aquela Kate Pierson jovem e contida havia se transformado numa predadora morta-viva? Não, fala sério; não é possível! Porra, é tudo ficção! – tentou afogar o desespero no ceticismo, mas, desta vez, a aridez dominou-a.

– Você entende inglês? – insistiu em um sotaque que comprovava que o inglês não era sua língua materna, mas tampouco dava pistas de sua terra natal. – De onde você é?

– Brasil. – balbuciou, com o acento fechado na primeira sílaba.

– Ah, sem prrroblema. – respondeu, agora em português, ainda que carregado na consoante gutural. – Meu nome é Cloto. Relaxa, não irei lhe fazer mal algum.

Ainda corria sangue quente nas veias, como pôde perceber pelo toque morno da mão em seu braço. As unhas curtas e incolores, apesar de bem cuidadas, contrastavam com as garras características dos monstros clássicos. Não, ela não poderia ser uma descendente de Tepes. Os receios foram esvanecendo-se aos poucos, conforme se embebia no carisma turvo e despretensioso de Cloto.

– Onde estou?

– Você sofreu um acidente. Encontramos você congelando às margens próximas daqui.

O fogo. O naufrágio. A queda. Não, não fora tudo um pesadelo e, pelo jeito, tampouco estava sonhando agora. Estava desnorteada, mas precisava avisar alguém que estava viva.

– Preciso fazer uma ligação…

– Hum… isso será um pouco difícil. Não temos telefones aqui.

– Meu celular… estava no bolso da minha calça…

Cloto pressionou os lábios e baixou os olhos. Abriu a única gaveta do criado-mudo e entregou-lhe o aparelho, como quem carregava um filhote de pardal que tentara voar pela primeira vez e falhara. Fora um pedido estúpido; sabia que mergulhar em um lago com o celular ligado não era uma circunstância contra a qual era protegido. Mesmo assim, com aquele último fio, tentou ligá-lo, em vão, quando uma palma de mão tocou sua testa.

– Sem febre. Não é nosso costume receber hóspedes, mas você nos deu um baita susto!

– Preciso das minhas roupas. Preciso levantar. – endireitou-se na cama, sem importar-se em deixar o busto à mostra. Que porra de lugar, em pleno século XXI, não possui um maldito telefone?

– Hum… A raposa que espera a galinha cair do poleiro morre de fome, certo? Vamos, vista-se. Há roupas no armário. Espero você lá fora.

***

Tirou de uma vez as cobertas e pôs de pé, assim que ouviu o ferrolho da maçaneta. Sentiu umidade sob as solas, levantando-as levemente, uma de cada vez, por instinto. Era um tipo de líquido viscoso, que formava finos perdigotos conforme fosse andando, mas não se amontoava em poças. Era morno, e parecia revestir os grossos fios de barbante que permeavam toda a extensão do chão do quarto, como um organismo simbionte alienígena. Sentiu nojo, mas acabou se acostumando com a temperatura agradável da substância. Pôs-se a caminhar em direção ao outro lado do cômodo, sentindo fraqueza nas pernas. Por vezes, abanou os braços no ar, tentando equilibrar-se. Até que visualizou um símbolo desenhado no meio da porta do closet.

Havia uma inscrição que não conseguia ler, em caracteres que não sabia identificar. Talvez fosse algum idioma do sudeste asiático, ou o alfabeto de uma língua antiga, já morta. Não entendia bulhufas de heráldica, mas parecia algum tipo de brasão. Ou o armário era bem antigo, ou havia viajado no tempo, de volta à Idade Média. Olhou para o chão que, por um milésimo de segundo, pareceu movimentar-se. Sentia-se como se estivesse sendo observada por oito mil olhos. Abraçou-se, mais uma vez sentindo-se nua, vulnerável, e apressou-se em abrir o armário.

Suas roupas não estavam ali. Havia apenas um vestido branco, longo e simples, com o mesmo símbolo que avistara pendendo à cintura de Cloto estampado no lado esquerdo do peito. Não tinha opção; ou usava aquilo, ou saía pelada. Colocou-o, deixando-o escorregar pelo corpo. Ajudou-o a descer pelo quadril e sentiu-se apreensiva com a precisão da bainha, que terminou o caminho cobrindo seus maléolos. Que símbolos todos eram aqueles? Estaria em poder de uma seita ou coisa do tipo? Aquelas roupas… seriam algum tipo de uniforme? Sacudiu a cabeça, e preferiu não dar vazão a mais conjecturas paranoicas. Pelo menos não enquanto não tivesse motivos claros para se preocupar. Queria dar prioridade às ações que a pudessem lhe tirar dali e retomar sua vida. Mas, pera… que vida?

Sorrira com desdém a si mesma. “Porque uma risada é a resposta mais sábia e mais fácil para tudo que é estranho”, já dizia Melville. Após o sorriso, entretanto, veio o medo. Era, no entanto, aquele medo instintivo, com o qual todos os humanos lidam perante ao desconhecido. Mas, por incrível que pareça, não tinha nada a ver com os últimos incidentes, com o lugar bizarro em que acordara ou com a misteriosa mulher que a esperava atrás da porta. Tinha medo daquele reinício de vida, lá na terra de palmeiras e sabiás, em que tudo lhe era estranho. Aquele medo que a incapacitava de reconstruir a vida e a aprisionava em um loop entre o tédio e o ócio. Aquele medo que a fez perder a voz interior ao gritar todas as manhãs, dia após dia, “Meu reino por um cachalote branco!”. Pegou as alpargatas brancas, calçou-as e caminhou sem dificuldade até a porta. Abriu-a.

O corredor era amplo, e pisava em placas losangulares e polidas que refletiam a luz do sol que penetrava pelas vidraças em forma de portais. Ao olhar para o chão, parecia estar sendo sustentada por uma doppelganger verde. Ao longo da galeria, havia colunas intervaladas com estrias côncavas nos fustes, terminando em capitéis dóricos para erguer abóbadas nervuradas. Apesar do interior parecer bastante monástico, a impressão era de que estava em algum tipo de palácio, rústico, sem extravagâncias como pinturas de autorretratos ocupando uma parede inteira ou lustres de cristais abastecidos por quase meia centena de castiçais. No entanto, os reflexos clorofilados que emanavam das paredes mortas evocavam uma atmosfera intimidadora, ainda que majestosa. Aparvalhou-se, desequilibrando-se por um momento na pedra semipreciosa límpida que cobria o pavimento.

– Bem-vinda ao Palácio de Jade. – recebeu-a Cloto, divertindo-se discretamente com a perceptível perplexidade da nova hóspede. – Venha, siga-me.

Caminharam em silêncio. Cloto, mais uma vez, desfilava à frente. O balançar das ancas ressaltava a circunferência errática das nádegas em movimentos senoidais. Sentiu algo acendendo dentro de si. Algo que parecia adormecido por muito tempo, mas que, agora, fora finalmente fisgado. Seguia a flautista como uma ratazana, com dentes incisivos a postos para mordê-la. Passaram por várias portas, arcos, outros corredores e até portões, e só conseguia fixar-se no meneio daqueles ombros, agarrando-se na esperança de que, um dia, pudesse, pelo menos, tocá-los. Preciso avisar a alguém que estou aqui, seja lá onde for… lhe veio à mente um par de vezes, e não conseguia manter o foco com os vislumbres daquelas costas desnudas, permitidos pelo embalo dos cabelos. Piscou demoradamente franzindo a testa.  Que está acontecendo? Não sou assim… Mas o desejo sobrepujava o discernimento, e voltou a fitar o rastro vertical sinuoso daquela cintura.

Apesar do embate confuso que se formava em seu imo, sentia-se, ali, naquele momento, surpreendentemente confortável. Talvez por sentir uma chama que há muito não ardia. Aquela chama, que nunca se acendera para uma mulher, ardia impetuosamente, como jamais ardera para homens. Era labareda que consumia toda a razão e secava as partes internas das coxas conforme caminhava. Seguia. Seguia. E seguia Cloto, aonde quer que fosse, mesmo que significasse se afogar como uma roedora mesmerizada.

Chegaram a uma antecâmara que se abria para um salão imenso, num arco lapidado entre colunas que sustentavam criaturas que pareciam gárgulas não hominídeos. No centro, a claraboia projetava um banho de luz solar esverdeada, como se estivesse pronta para receber e destacar a atração principal de um show de rock bizarro e kitsch dos anos 70. O vitral monocromático não era suficiente para suprimir as penumbras nas bordas do ambiente, mas formava uma imagem difusa do símbolo que Cloto carregava na cintura. Uma série de lâminas sobrepostas se estendia dali até uma grande poltrona no lado oposto, como se um monstruoso réptil rastejante acabara de trocar de pele. O tapete de escamas prateadas e sem vida emergia em alto-relevo do assoalho, acompanhando os degraus que elevavam a plataforma e revestindo a própria poltrona, no assento e no encosto. Uma formação rochosa de grandes proporções se precipitava do teto em direção ao trono, formando o que parecia ser a cabeça de um dragão. Ou melhor, como ela imaginava que seria a cabeça de um dragão.

As pernas bambearam. Quando voltou a olhar para as colunas que marcavam o portal, percebeu que as gárgulas eram, na verdade, esculturas de dragões em miniatura. Que porra de lugar sinistro é este??? Não, não queria entrar ali; pelo contrário, queria dar o fora dali. Mas estava disposta a seguir aquela mulher até os confins do universo. Não, hesitou por um instante. Cloto percebeu e se virou. Pegou suas mãos gentilmente.

– Já estive em seu lugar e sei como é. Sinto até hoje o medo que este lugar imprime em nós. Mas não é um lugar para sentir apenas medo. Venha, vou lhe mostrar algo. – conduziu-a por uma das mãos.

Passaram pelo pórtico e caminharam salão adentro. À medida que se aproximava, podia ver melhor através das sombras. Obteve uma visão mais clara do trono; com inscrições cravadas ao longo da jade esculpida que não conseguia decifrar. Detalhes suaves e esmeraldas retorciam-se como tatuagens tribais em uma pele escura. Nas arestas do topo do encosto e dos apoios de braço, protuberâncias pungentes simulavam acúleos em prata e em grande quantidade. Não havia pernas na grande cadeira, mas uma base única, sólida, com sulcos que passavam pelos braços da poltrona e contornavam o topo.

Piras vazias estavam suspensas por pedestais longos e finos, guardando as escadas que circundavam o assento magnífico. No fim dos degraus, duas flâmulas pendiam do teto e cobriam as paredes de cada lado de um portão em arco pontiagudo. Mais uma vez, agora bem mais presente, aquele símbolo estava estampado em negrito, num fundo branco: três cabeças reptilianas farpadas e com pescoços espiralados unidos em um centro pontual.

Pinçando graciosamente o vestido na altura das coxas, Cloto subia os degraus lentamente, como se esperasse ganhar tempo para que o medo da hóspede desse lugar ao deslumbre. Chegando ao topo, pararam em frente ao portão gótico, precisamente atrás e acima do trono, e Cloto percebeu que sua tática funcionara. Segurou as aldrabas com firmeza.

– Creio que você esteja repleta de perguntas, mas primeiro vou lhe apresentar o Mirante Sublime. – empurrou as portas duplas pesadas e a luminosidade natural invadiu o ambiente.

Fechou os olhos imediatamente. Ousou abri-los aos poucos nos momentos seguintes, confortando-os com as cores dos jardins à frente. Cloto não se deteve e adentrou-os. Seguiu-a pelo caminho de pedra principal, marchando pela anarquia de olores de nêvedas-dos-gatos, jasmins, alfazemas e sálvias-ananás. Passou pelas ramificações dos pisos em xadrez clássico que levavam a clareiras cultivadas com gardênias níveas salpicadas com gerânios amarelos, ou gérberas multicolores em meio a goivos pálidos. Os canteiros eram baixos e delimitados por granitos verde-escuros, permitindo a visão até os balaústres de estilo francês que protegia os desavisados da queda fatal. A combinação caótica dos aromas contrastava com simetria dos plantios, mas sugeria harmonia naquela batalha eterna entre Apolo e Dionísio, fazendo-a sentir-se, inusitadamente, serena. Precisava aproveitar aquilo. Cerrou as pálpebras suavemente e inspirou fundo. Ah, se acreditasse em meditação, aqui seria, provavelmente, o lugar perfeito para isso. Não demorou, portanto, para abri-las, cética, deitando a visão sobre aquelas estátuas de bronze que emergiam como o marco vaidoso do arquiteto de uma obra. Aliás, havia algo de muito errado com o arquiteto daquele lugar e sua obsessão, aparentemente patológica, por dragões. Devia ser algum nerd riquinho jogador de RPG…

Libertas, Fiducia, Honestas, Obsequium

Libertas… Liberdade. A liberdade inata que aprisiona a formação do caráter e mantém os pais como carcereiros implacáveis. Aquela liberdade castradora que cerra as asas dos sonhos e forra o chão com o vil metal. A liberdade do cordeirinho que sequestrou anos de sua vida para sustentar coisas que outros, e não você, projetavam sobre si. Ah, a liberdade! Aquela que se leiloa a um governo corrupto em troca de ordem e passividade. A afetiva que é renegada pelas responsabilidades impostas por cônjuges e pela sociedade. A utópica em que podia fazer o que quisesse, mas que, na prática, a condenava a julgamentos arbitrários e perniciosos sobre todos os seus atos. Aquela liberdade disfarçada de outro nome com a qual se suborna o homem com promessas do Éden. Ah, doce e sempre bem-vinda liberdade: a ilusão capciosa de que podemos ser, gratuitamente, algo além do que somos. Buscara-a durante toda a vida justamente para descobrir que está condenada ao livre-arbítrio, num chiste paradoxal em que Jean-Paul Sartre ria às pedradas de responsabilidade e consequência que lhe atirava. Sentia-se presa a carregar um fardo que vinha lhe esmagando mais e mais, à cada escolha que fazia para si mesma.

Era a única palavra que conseguiu identificar com o latim pobre dos carpe diem arcádicos e das monografias lato sensu. Aliás, mesmo sem ler qualquer obra de Claudio Manoel da Costa, decidira tatuar a frase na nuca, após o divórcio, traçando um novo caminho para a liberdade que almejava. Pretendia viver sob este lema, talvez a sentença mais famosa da literatura brasileira (que, curiosamente, não era em português), assim como outras tantas mulheres de mesma idade corriam atrás das letras itálicas e desenhadas cravadas na própria pele. No entanto, falhou miseravelmente, conforme o desânimo tirou do mar sua Moby Dick e colocou-a sobre os ombros.

Não havia qualquer outra informação sobre as estátuas na discreta inscrição no sopé. Um dragão, maior, bem encouraçado e mais espinhento, segurava um ovo esguio e dourado junto a outra criatura similar, porém mais delicada e elegante, tal qual uma lâmia búlgara de única cabeça. Era uma escultura grotesca, reinando sobre o caos e a ordem daqueles jardins e expurgando qualquer impureza daquele ambiente sublime.

Aproximou-se de Cloto, já na balaustrada, e aproveitou a vista. Mas não foram as águas, as nuvens ou os pássaros que clamaram por seus olhos. Aquela mulher era uma visão mais sublime que o próprio mirante que carregava o nome. Arrependeu-se por desperdiçar tanto tempo em contemplar o local, enquanto poderia estar admirando os poros daquela pele. Sentia-se enfeitiçada e, tendo consciência disso, não fazia a mínima questão em oferecer resistência.

– Daqui, filenáda, você pode ver onde estamos. O nome é Dracília, mas chamamos também de Ilha de Jade. – apontou, abrindo os braços com as mãos espalmadas ao céu, aproveitando o dia como se estivesse em um teatro onírico de poetas antigos, mas não esquecidos. Apoiou-se, então, de costas no parapeito para sentir  o impacto daquelas palavras aos ouvidos da recém-chegada e banhou-se na suavidade do vento lacustre.

Estava em um ilhote rochoso, ligado ao continente azimutal através de águas pardas e rasas que escondiam a maior parte de um istmo natural. Estava debruçada sobre uma cidadela, enquanto o Palácio de Jade a observava por detrás, com a única torre vigiando a amurada de toda aquela magnífica plaga flutuante. Dali do terraço onde estava, duas escadarias laterais despencavam até uma praça, que servia como nó, atando e redirecionando várias trilhas incongruentes que se embrenhavam pelos bosques. O terreno acidentado era bastante copado, mas conseguia distinguir, dentre toda aquela ramagem, resquícios de choupanas espalhadas, acompanhando as sendas mata adentro. Bem abaixo de onde estava, uma construção corpulenta e sem sacadas beirava um lado inteiro do terreiro, dominando aquele centro, tal qual a casa-grande subjugava o engenho no Brasil colonial. No cerne da vila pouco povoada, um modesto chafariz de dois andares jorrava água em silêncio, enquanto um par de pica-paus exibiam salpicos brancos nas asas rasantes ao redor.

– Que… que lugar é este? – sentia-se como se tivesse sido abduzida para uma espécie de Torre de Babel temporal.

– É lindo, não é? – sorriu, divertindo-se comedidamente com o estupor alheio.

– É… – estava confusa. Não sabia nem por onde começar. Eram tantas dúvidas que embananou-se nas questões. Queria saber mais sobre onde estava; mais que isso: queria saber mais sobre Cloto. Para isso, precisava sair daquele estado lacônico de torpor. – Hã… aqui… é uma espécie de mosteiro? Você vive… mora aqui? – foram as primeiras perguntas que tartamudeou, tropeçando na própria língua.

– Hum… nunca havia pensado desta maneira. Mas posso dizer que sim, estamos numa espécie de mosteiro. Só que sem monges. Nem monjas. – pausou, para dar tempo da resposta ser absorvida. – Vivo sim. Eu e todas as minhas irmãs. Venha, vamos conhecê-las!

Só conseguiu pensar em que número significava aquele “todas”. Talvez ela não soubesse quantificar neste idioma. E foi aí que percebeu o quão bom era o português dela. Era tudo tão surreal (o cruzeiro de James Cameron, o Palácio do Mortal Kombat, os Jardins Suspensos da Babilônia, a ilha das amazonas de Themiscyra e todo aquele convento de Umberto Eco), que aquela Pamela Isley fluente em português não era algo tão absurdo. Mas agora, além da embriaguez causada pela umidade das virilhas, sentia despertar um interesse que transcendia a mera curiosidade.

***

 

 

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