O nome é Rafaela. “Nome forte para uma menina forte”, dizia ele. Sabia, no entanto, que era apenas uma variação de Rafael, o primogênito, e, no futuro, descobriria que era apenas uma sombra dele. Ou que, pelo menos, fora criada para isso.

Não entendia o porquê de tanta proteção, já que era uma “menina forte”. Não podia beber, para a própria proteção. Nem fumar, para preservar a saúde. Com Rafael fora diferente. Não porque as coisas lhe fossem permitidas, mas porque pareciam confiar nele. Não podia beber, nem fumar. Mas podia sair, desde que meia-noite estivesse em casa. Ela não. “Não se pode confiar nos homens hoje em dia”, dizia ele. Mas Rafael era homem e papai confiava em Rafael.

Nem sequer aos palavrões da TV podia assistir, mas, pelo menos, escreveu-os até cansar em paredes e portas de banheiro. Nudez também era censurada. Bem como shorts, minissaias ou qualquer outra que desnudasse o cós ou revelasse as coxas. Sexo então nem pensar. Nem no pelo, nem com camisinha. Nem o papai-e-mamãe-amorzinho, nem aquela foda bestial que deixa o cu assobiando de tanto que faz bico. Nem Rafael podia, na verdade (foder, claro, porque se o cu a assobiar fosse o dele, vixe…). Aliás, sexo era tabu em casa, menos no noticiário.

Porque, nos noticiários, ela merecia ser violada, seja por causa da roupa, seja porque estava sozinha, seja porque… seja porque era mulher. Afinal, a culpa nunca era do homem. Vejam bem, eu disse “homem”. Porque quando não tinha jeito de culpar a mulher, o estuprador era sempre categorizado como “monstro”. Tipo, sei lá, uma nova raça de ser humano. Estuprador era qualquer coisa, menos homem. Mesmo quando este estuprador, este homem, era o namorado, marido, tio, irmão, pai, avô; era um monstro. Todo e qualquer Dr. Jekyll sabe bem como to hide (perdoem o trocadilho) esconder o Sr. Hyde. Sabemos, no entanto, que é impossível que, uma vez liberados, os civilizados Jekyll não se viciem na liberdade dos Hyde. A merda é que a sociedade escolhe fechar os olhos para os Jekyll dos Hyde, e não o contrário. Porque eles sabem, muito bem, que os Hyde são ou já foram como eles. E também sabem que os doutores são fracos demais para conter a tentação do poder dos Hyde.

Cresceram, e me tornei gente, humana. Queria foder, e não podia. Nem com quem quisesse. Ainda não era madura para isso. Os homens, na mesma idade, eram, e Rafael já podia foder meio mundo, até quem não quisesse. Afinal “quem mandou beber daquele jeito, né?”. Podia meter até naquelas que ainda não eram maduras o suficiente, porque os pais não deram educação, as deixaram soltas pelo mundo ou não souberam protegê-las. Mas isso não aconteceria comigo. Eu, Rafaela, princesinha-do-papai.

Rafaela significava “curada por Deus”, mas devia faltar um erre ali. Porque, se fosse pelo deus em que o pai acreditava, ela só era fodida por Ele. Amém. Papai era um defensor Dele e da Moral e dos Bons Costumes. Em nome desta santíssima trindade, valia tudo: discussões, humilhações, privações e violência. Guerras foram travadas, mas sempre com deuses alheios, ou ímpios que se apropriavam de seu Santo Nome. Nunca fora o Deus dele. Nunca foram os verdadeiros fiéis Dele; nunca fora ele, seu pai. Era tudo vontade de Deus, mas ele, papai, era quem sabia o melhor para a vida dos outros. Queria o ensino religioso nas escolas, mas só da religião dele. Tal como outros antes dele, e como muitos outros virão, papai usava o nome de um deus. Sob falsa modéstia escondia-se atrás dele, para fingir respeitar o próximo e cuspir preconceitos sem qualquer pudor. Queria tanto que outros vivessem como ele, que esquecia que havia “outros”. Preocupava-se tanto com a vida alheia, que esquecia da própria, e da família. Enquanto eu, Rafaela, a princesinha-do-papai, chorava no quarto, ele esbravejava na sala contra o beijo entre dois homens no horário nobre.

Papai era um homem de bem, um homem de e para a família. Um “cidadão de bem”, como ele dizia. Saía cedo para o trabalho e voltava tarde, já à noite, mas sempre encontrava tempo para defender o núcleo familiar. E como ele fazia isso, senhoras e senhores? Em rodinhas de conversas no churrasco do fim de semana, ou até mesmo nos intervalos do trabalho, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ah, e como conhecia este Verbo! – era capaz de tudo para se fazer ouvido e não contestado. Papai era como qualquer religioso: abominava a mentira, desde que ela não servisse ao seu próprio Deus. Isso valia para tudo em que acreditava; papai era seu próprio Deus. Vociferava analogias enfeitadas, que surpreendia os colegas menos cultos. Acessava a internet para ler títulos de fake news e propagá-las, desde que carregassem conteúdo que o ratificavam. Debatia com propriedade, mas sem qualquer conhecimento científico, ou descartando-as ad hominemente. Gesticulava com eloquência contra os questionamentos morais – “Para onde vai este mundo com o rumo que a sociedade está tomando?” era questão sempre presente, ainda que retórica –, e regozijava-se em concordâncias. Esquivava-se com a famosa citação de Descartes “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”, mas sem saber que o filósofo francês nunca escreveu isso (e que uma mulher foi quem o fez). Papai beirava a verborragia patológica, com pitadas de esquizofrenia teológica.

Tempos bons, aqueles. Hoje em dia, tem muito mimimi”, dizia ele. Porque papai era do tempo que violência era só agressão física. Do tempo em que repressão era só a do governo militar, e não aquela que instaurava dentro do próprio lar, em nome da Moral e dos Bons Costumes. E de Deus. Sua única arma era a palavra, e, agora, queriam lhe tirar até isso. Desarmar um homem de bem, um cidadão de bem. Hosana nas alturas!

Todos gostavam dele. Pelo menos no trabalho, onde cumprimentava-os sem distinção de credo, cor ou classe social, e flertava com as faxineiras e copeiras, sob o disfarce de gentileza. Entre um discurso inflamado e outro, gabava-se de quando visitava puteiros pelo Brasil, e comia uma, duas, três putas numa noite. Contava histórias sobre suas aventuras extraconjugais, com orgulho e extravagância, arrancando gargalhadas com trocadilhos e onomatopeias criativas. Aqui, a Moral e os Bons Costumes davam lugar a uma epopeia de putarias, mas abundante da decência insossa do papai-e-mamãe-de-dois-minutos-de-duração. Porque Deus abençoava sua fama pudicícia de fodedor, mas recriminaria qualquer perversão sexual (leia-se: qualquer coisa muito além do cachorrinho, ou qualquer coisa que – insira aqui seu nome – considere bizarro). Porque papai jamais imaginou que mamãe, para ele um exemplo inquebrantável de pureza e castidade, fosse capaz de chupar o pau de cada professor da escola de seus filhos (e que o fizesse sem deixar qualquer vestígio – mamãe era foda). Porque papai recriminava os jovens precoces que “se pegavam” em público, e as jovens que pintavam os cabelos de cores “esdrúxulas”. Porque Deus desgraçava tatuagens e nudez, mas cagava para a quebra do sagrado matrimônio, para as traições e para as punhetas batidas, com pilhas de DVDs pornôs aos quais assistia escondido da mulher – e de Deus também, pelo jeito (à sua maneira, então, papai também era foda – só que não).

Aos domingos, papai nos levava à missa. Rafael até curtia, e não haveria porquê de não curtir. Tudo lhe era proibido, mas relevado. A mim, tudo era proibido, e reiterado. E fiscalizado com o dobro de esforço, exigência, desconfiança e atenção. “Nome forte para uma menina forte”, dizia ele, mas não entendia porque tanta dedicação de um lado e descaso do outro. Não entendia o porquê de tanta proteção, já que era uma “menina forte”. Não entendi até crescer, e descobrir que Deus era apenas mais um. Nem pior, nem melhor. Apenas mais um. Um. Não uma; não havia deusa alguma. Se houvesse, havia um deus, no masculino. Porque Deus era homem. E como sei disso? Porque ele me fodeu a vida inteira e nunca precisou de permissão para isso. Fodia aos pouquinhos, sem que eu sentisse, e nunca me deu chance de gozar. Sim, Deus só pode ser homem. Eu, Rafaela, não queria ser currada, nem curada por Deus, nem por ninguém. Mas eu, Rafaela, era a “menina forte” que aguentava sua onifodência. Só que não era forte porra nenhuma: era apenas mulher. Isso por si só já significava ser forte, caso eu quisesse sobreviver àquele mundo hostil, de ímpios e de cidadãos de bem.

Sobrevivi, mas não vivi, como outras tantas. Obrigado, mamãe, por tudo. Quanto a você, papai, espero que leia o que escrevi nos azulejos do banheiro, com o sangue dos próprios pulsos. Sim, é para você. Caso não consiga ler:

Vá se foder!

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