Puta merda. Sempre adorei a expressão “Puta merda”. Por três motivos principais; primeiro, porque adoro surpresas. Segundo, porque puta é quem eu sou, não apenas o que faço para sobreviver. Por último, porque minha vida é uma merda.

As pernas eram parte fundamental da vitrine, então precisava deixá-las à mostra. Couro podia até ser quente, mas naquele frio não evitava que minha bunda congelasse. A porra do vento que entrava por baixo batia de frente com a minha buceta, eriçando os pelos pubianos, já que não os aparava toda santa noite. Pelo menos podia cobrir a barriga e os peitos com a jaqueta, aquecendo-me até o próximo carro encostar e baixar o vidro do carona.

Ah, arrependi-me das vezes que praguejara contra Reinaldo. Um dos meus clientes mais assíduos, o velho broxa era uma solução bem-vinda para escapar daquela friaca. Lembrei-me de quando insistiu para que fosse a sua cobertura. Era hábil com as palavras, mas nada sedutor. Aquela porrinha carrancuda, de pouco mais de metro e meio, tinha pequenos olhos, com as bochechas sobressaindo na cara redonda. Ele, talvez o único que já fizera isso, sempre parava e descia do carro para tratar de negócios comigo. Apelidei-o de Rei da Roça, pois não descartava o flerte, mesmo após o décimo encontro. De gestos ensaiados, tocava meu ombro com unhas compridas e de esmalte incolor, com preocupação em demonstrar respeito, até mesmo um certo carinho, por trás de toda aquela aparência xucra; era um nobre dos tempos modernos. Os cabelos encaracolados, oleosos e pintados camuflavam a idade, mas nem tanto. O arco dourado e grosso que espremia o anelar gordo me deprimia, pois sabia que uma pobre alma estava condenada a deitar-se toda noite com aquela criatura asquerosa. Puta merda! – era o que dizia toda vez que via o monza cinza reduzir para o acostamento. Mas pelo menos não morria de frio.

Enquanto isso, ficava ali mesmo parada, sentada no meio-fio da Avenida Marcus Cherem. Sem aquele bololô de gente que o dia traz, o lanche da madrugada era um cigarro após o outro. Se fosse uma segunda-feira, não estaria mofando ali. A esta hora, já estaria no quinto cliente, com o colo arranhado em carne viva de tanto sentar. Se tivesse sorte, teria, até o raiar do dia, uma estocada decente. Uma daquelas que faria sentir-me menstruada. Aquela foda que latejasse o útero, e deixasse minhas coxas internas escorrendo a mistura rosa de fluidos meu e do benfeitor. Porque era isso que esperava, no mínimo, a cada noite de trabalho. Não aquele frio do caralho.

Uma Brasília vermelha-tímida dobrou a esquina do quarteirão. Levantei e ajeitei a saia. Devagar, ele encostou e abaixou o vidro. Debrucei e larguei o slogan pessoal:

– Olá, gato, a fim de foder forte e gostoso? – junto com piscadela e o peito à mostra, quase nunca perdia um novo cliente.

Pelo que pude ver, era um garoto de no máximo vinte anos. Devia estar cursando a faculdade e resolveu desestressar um pouco antes das provas finais, saindo com o carro que papai lhe dera há pouco menos de dois anos.

– Qua-quanto é? Ou custa? – voz baixa, como se não quisesse que ninguém ouvisse ou tivesse vergonha do que fazia ali.

– Para você, amor, faço por cinquentinha a hora.

– Vo-você faz… hum… anal?

Ora, ora, quem diria? Estava crente que minhas beiças fumariam um charuto (ou um cigarrinho, porque descobri mais tarde que o garoto era todo tímido, se é que você me entende), mas ele queria mesmo era apagá-lo no meu olho. Do cu. Olhei-o de cima à baixo, somente para disfarçar. Fiquei imaginando se aquele garotinho conseguiria abrir minha bunda e atochar com força, tirando sangue do meu rabo e fazendo-o correr quentinho pela beirada, dois dedos à frente (ou abaixo, dependendo da posição). Só fiquei na imaginação mesmo.

– Mais vintão e eu boto você todo pra dentro desta bunda gostosa – e virei de costas, levantando a saia.

Funcionou. O Motel Scorpion ficava um pouco mais à frente e nem deu muito tempo de passar a marcha para relaxá-lo. Conversa vai e conversa vem, ele me revelou que era virgem. Foi pá-pum. Mal tirei a roupa, encostei no biro-biro dele e puf – jorrou leite, com violência jovial. Bom para mim, que economizaria tempo ao voltar para aquele frio do inferno. Bom, não era o mesmo frio, porque praquele inferno, eu não voltava. Nem fodendo.

Em pouco tempo, estava lá de volta: vento rasgando a buça e calçada gelando o cu. Depois de mais um ou dois, não me lembro, minha buceta estava cheia de porra, do jeito que eu gosto. Eu sou uma “puta imunda”, no sentido literal da expressão, porque não tomava banho e acumulava golfada. Sim, eu só fazia no pelo; era o jeito que eu curtia. Sei lá, acho que eu absorvia todo aquele caldo branco, me alimentava daquilo, de sexo. E era assim que mantinha clientes naquela noite vazia e fria, e que me divertia quando algum desavisado insistia em chupar a xoxota lambuzada e usada, cuspindo e xingando ao sentir o gosto de água sanitária.

Desta vez, nem praguejei contra ele, e veio. Eu gosto mesmo de meter, sentar, rebolar, dar. Mas, puta merda, com aquele catiço era dose. Não havia nada ardido ainda quando chegou; estava pronta para ser usada. “Lavô, tá novo”, mas não tinha nada limpo ali. O monza encostou: o Rei veio para mais um episódio de tantos outros de traições à sua senhora. Puta merda. Pelo menos, era o último.

A monogamia é aquele joguinho cujas regras todos já sabem. Sempre que o outro vira para o lado, dão uma roubadinha. Por isso, ninguém nunca enuncia as regras antes do início do jogo: fica mais fácil de jurar inocência depois, ao alegar que “não sabia”. Preciso assumir que amo demais estas regrinhas; ora, aqui sou puta e vivo graças a elas.

O que seria de mim sem a Srta. Moral? A porra do planeta viraria palco para uma fodelança maior que a cena famosa em Perfume, que só sairia daqui a alguns anos. Ninguém iria pagar por uma chupada ou pela obra de arte que era a minha rebolada numa piroca. Bem, talvez realmente não houvesse mais infidelidade, mas haveria traição. Ah, sim. Porque o homem se diverte com a mentira, mais até do que metendo num cu apertado. Por isso, me pagam para fechar os olhos para a Srta. Moral, enquanto eles mesmos, os putos, cagam na cabeça dela, com eufemismos como “caso”, “relação extraconjugal”, e o diabo. Puta merda.

Tudo bem que não havia relacionamento comigo, e isso o dinheiro garantia no final. Com a amante era diferente: havia relação, ainda que fosse considerada puta, mas comigo, com uma “puta de verdade”, não havia. Pois bem, permanecia ali, no limbo entre a traição e uma relação extraconjugal, sem moral alguma para julgar alguém. Ou pelo menos, era o que achavam.

Vamos pular a parte do flerte porque eu era paga para ouvir aquilo. Vocês não. O aquecedor do carro estava ligado no máximo, e Reinaldo suava em bicas, com as papadas apertadas na gola da camisa social estufada. Meti a mão no meio das pernas dele, e ele se ajeitou. Fiquei curiosa para saber qual era a justificativa que usava para trair a esposa. Seria falta de tesão nela? Seria falta de tesão dela? Sei lá. Já ouvi tantas desculpas que dá até vontade de rir, de tão forçadas que são. Vai ver a Rainha da Roça não curtia lamber o cu fedido e peludo dele. Não importa; qualquer que fosse o motivo, ele estava ali, prestes a me foder com todos os seus três minutos de fôlego e sorriso amarelo.

– Você sabe que hoje é o nosso décimo terceiro encontro?

O velho arregalou os olhos e franziu a testa. Engasgou e riu, sem saber o que dizer.

– Eita, preula. Verdade?

– Sim, eu contei, amor. E hoje, você vai sentir isso aqui diferente. – levantei a saia, apertando com os dedos a racha.

Estava escorrendo pelas coxas, deixando uma poça no banco do carona. Porque era a última vez dele, e eu sempre acabava gozando horrores nestes casos. Mais que com qualquer destas bimbadinhas mundanas.

– Encosta o carro. Vamos comemorar aqui mesmo; quero que me foda agora, aqui mesmo. – molhei as camadas untadas dos seus dedos na buceta e lambi-os. As unhas eram bem cuidadas, mas para disfarçar as crostas debaixo, mas não camuflavam alguns panarícios.

O Rei titubeou e diminuiu. Quando o monza parou, enfiei-me de pernas abertas entre sua barriga sobressalente e o volante, roçando pentelhos em botões que quase pipocaram. Puta que é puta vende ilusão. A ilusão de que o bagulhinho é desejado, de que o trocinho dá prazer, de que o canalha é poderoso. Mas algumas putas achavam que só vendiam sexo, que só vendiam o corpo. “Putas não beijam” – diziam elas.

Segurei as bochechas ásperas e rubras, tascando o beijo, o último. Senti uma cutucada de brim no grelo: o biro-biro acordara dos mortos. Veio prestar-lhe a última homenagem, pensei. Então mordi sua língua e a arranquei com os dentes, enquanto rebolava naquela piroquinha meia-bomba. O desgraçado se debateu e tampei sua boca. E não é que o filho da puta se excitou com isso? Encaixei-o dentro de mim, com o pau pulsando mais que as luzes foscas do Scorpion. Chifres dilataram minha testa; era hora de revelar minha verdadeira aparência, já que me possuíra tantas vezes, sem ter ideia de quem sou. Ou melhor, do que eu sou. Asas irromperam pelas laterais do Chevrolet, olhos choraram betume, e dentes sulcaram as gengivas. Reinaldo revirou os olhos, enquanto se afogava engolindo o próprio sangue. Tinha sentido pena dele, mas tinha fome e aquele cotoco latejava dentro de mim. Como a todos os outros, dei-lhe as doze chances de se arrepender, voltar atrás e fingir que nunca tinha me conhecido. Ele voltou, e voltou, esquecendo a Srta. Moral, e trocando a Rainha por mim, esta puta tão bonita que não acreditavam que era barata. Tão gostosa que não acreditavam que eu fosse tão puta. Tão puta que não acreditariam que eu era um demônio, nem se eu confessasse. Para o Rei, cada encostada do monza cinza era seu Éden, e um puta merda para mim.

Como já disse antes, vão inventar todo tipo de justificativas para a mentira. Ah, sim, meu charme é sobrenatural, místico, blábláblá. Porque nem Ele, em toda a onipotência divina, era capaz de recusar a buceta arrebatadora da Criadora do Tesão, Rainha das Súcubos, a Primeira das Putas. Com uma simples batidinha de asa, minha borboleta abraçaria a pemba toda-poderosa, em magnetismo tão forte quanto o que faz o Mjolnir procurar a bunda do Thor. Confiava no poder da própria buceta, que há milênios garantia sua estadia no mundo dos homens. A fé pode mover montanhas, mas uma buceta movia cordilheiras, picos e picas. Meu cu, então, movia mundos inteiros.

Mas não havia desculpas. Violei o pomo de adão com os dentes, enquanto perfurava a costela com as garras, numa vingança bíblica, ainda que fictícia. Pela décima terceira vez, arranquei o jato de porra, mas, agora, a alma fora junto. O Rei fechou os olhos e aquietou-se, mas o carro ainda se sacudia sobre as rodas inertes. Ninguém sentiria minha falta lá embaixo, pelo menos por mais uns treze anos. “Melhor reinar sobre a merda, do que servir no Céu. Ou no Inferno.” Banhei-me e saboreei a carne do homúnculo, porque sabia que teria de voltar ao relento e, desta vez, não haveria Reinaldo para salvar-me da friaca.

Puta merda.

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