Eu tive um sonho ontem, e preciso compartilhar com vocês: eu ia até o Inferno.

Ao chegar no Inferno, eu, Orrabante de Caralhieri, fui elegantemente recebido pelo ilustríssimo Walter Mercado, o Dumbledore da novela O Clone, que nos convidaria a uma tour, dizendo “Ligue Djá”. No portão dos Ínferos, uma inscrição: “Deixai todo o metal, ó vós que entrais”. Não havia cadeados, nem fechaduras; mas uma porta giratória transparente igualzinha àquelas de banco, que vivem travando pobre com moedinha no bolso ou corrente de camelô no pescoço, e que nunca servem para porra nenhuma contra um assalto de verdade. Fiquei três horas rodando e indo e voltando por aquela budega, até ter de tirar o marca-passo colocado pelo SUS, e morrer mais uma vez. Mas foi de boa, porque já estava morto mesmo.

Passando pelo Portão, cheguei ao Vestíbulo, onde se encontravam todos os isentões que não iriam nem para o Céu, nem para o Inferno. Eternamente condenados a ouvir uma palestra de Leandro Karnal, relembrando-os que todo o sofrimento que tiveram foi porque furaram fila, corriam em círculos de uma motosserra. Na plateia, demônios com a cara da Kátia Abreu o xingavam, por vezes de bolsominions, outras, de petralhas. A maior tortura, no entanto, era eles mesmos saberem que foram ciristas.

Mercadão, como eu mesmo o apelidei, só sabia falar “Ligue Djá” e me chamou para o barco. “Ligue Djá” – disse ele. Atravessamos o Rio Doce, todo cagado por uma lama marrom-cocô-de-infecção-intestinal, e passamos por vários Demônios de Gólgota atolados na merda. “Ligue Djá, Ligue Djá” – disse o mago da moda cigana-rowling – e eu sei lá porque cargas d’água entendi que aquelas criaturas já foram pessoas que acreditavam que os jogadores do Flamengo mortos no incêndio do Ninho do Urubu deveriam ser indenizados de acordo com o talento e a previsão de sucesso de cada um. “Ligue Djá” – disse ele novamente, e me garantiu que nem ele próprio, o Álvaro Dias porto-riquenho, seria capaz de fazer.

 

O Primeiro Círculo: o Lembas (virtuosos chatos para caralho)

Aqui, encontrei pessoas boas. No bom sentido mesmo, e não pessoas gostosas, o que não deixa de ser um bom sentido também. Eram elas: os ateus que ficam de boa (não aqueles ateus-modinhas que não entram em igreja porque “ain, sou contra, blábláblá-whiskas-sachê”), os crentelhos que são bondosos (mas continuam chatos BAGARAI, tipo tocando às sete horas da madrugada do domingo para levar a palavra da putaquepariu), e os elfos do Senhor dos Anéis (que só são foda para caralho nos filmes, porque nos livros são tão chatos quanto um ent). O ruim era que só tinha umas dez cabeças e, tirando os elfos (que eram os mais críveis), achei que o resto fosse fake news do Capiroto para não deixar aquele lugar vazio. Ali, só se ouvia lamentações e suspiros, o que era bem condizente com o que eu ouvia (ou imaginava ouvir) quando um deles abria a boca.

 

O Segundo Círculo: o Tinder (transantes e não-transantes)

Chegamos ao Templo do Rock, e ele estava lá. O ícone, o mito, o Juiz do Inferno: Serguei – o Desbunde Eterno. Pacientemente, e dopado por umas 25 drogas diferentes, ele ouvia as confissões surubásticas dos mortos. Ao som de Janis Joplin, ele condenava-os a um determinado círculo enrolando-os com sua gigantesca giromba. Quantas voltas a giromba em torno do condenado era o círculo correspondente do Inferno ao qual estava destinado. Mamilos neon flutuavam e piscavam no ar. Percebi que este era o preferido de Mercadão pelo seu sorrisinho no rosto abótoxado. O lugar tinha uma vibe bem tranquila mesmo, mas mais diante, ficava o Tinder: uma aberração onde não-transantes destransavam os transantes escrevendo perfis toscos com “gosto de um bom vinho” (quem curte beber mijo de capeta, porra?). Ou postando foto com bico de pato no espelho do banheiro, talvez para provar que pode nem dar o toba, mas sabe deixar a boca igual a um. Quando olhei para o lado, Mercadão se empinava, fazendo um prolapso anal com aquela beiçola: “Ligue Djá” – disse ele, e fomos para o próximo círculo.

 

O Terceiro Círculo: o Não Fóde Truck (os “dores”)

Pegando o bonde do círculo anterior, este aqui era o dos “organiza-dores de suruba”, os que querem cagar regra em qualquer bosta já cagada, e dos “gourmetiza-dores”, os que mudam o nome de qualquer coisa, adicionando tompero e voilá. Ambos vendem o mesmo produto: chorume antigo, mas com o dobro do preço. Tipo a Hinode, o Herbalife da nova geração, e os food truck, que eram os antigos podrões (agora com luvas e orégano). Até o puteiro foi gourmetizado; agora é whiskeria. Ah, não fode.

Neste círculo não havia, por incresça que parível, ninguém organizando nada, mas demônios me disseram que esperavam ansiosamente por Michel Chamon, o organizador de suruba mais virjão de todos os tempos. E apontaram para uma pilha de pacote de Ruffles: “Aquilo ali é tudo para encher o cu dele de farelo” – disseram. Enquanto isso, os “dores” ali sofriam ventanias de Dionísio, transformando tudo em caos, levando, arrastando, misturando e fazendo tudo voar pelos ares. Walter Mercado estava cabisbaixo, sorumbático, macambúzio, bocicódio, eu diria. E eu sabia porque: o Mestre da Displasia Facial Voluntária Cirúrgica sentia-se obsoleto, pois, agora, era outro Mercado que mandava na porra toda. Um cuja mão é invisível porque está sempre atochada no nosso cu.

 

O Quarto Círculo: o Ancapião (neoliberalóides e afins)

Falando no novo Mercado, chegamos à cidade de Ancapião, capital do Quarto Círculo. Era uma cidade de escravos neoliberalóides, ancaps e anarco-qualquer-bosta, eleitores do NOVO, meritocrentes (os crentelhos da meritocracia), e até alguns ciristas e petistas. Com uma classe méRdia gigante que dormia num chiqueiro à noite, mas, de dia, saía em busca de trufas no meio da merda dos demônios a quem serviam, a cidade fervilhava eternamente em cores verde e amarelo e ao tinir de panelas se batendo. Os anarco-qualquer-bosta cuspiam merda pela boca, porque pagavam imposto para cagar (não muito diferente da realidade, convenhamos).

Era uma cidade lotadaça daqueles capitalistas sem capital, que viajam à lazer só nas férias, remuneradas ou não. Tinha um curral gigante, com várias baias; uma delas transbordava roqueiro-modinha, aquele que acha possível ser roqueiro e conservador, e que se acha o vikingzão só porque deixa barba e cabelo crescer (mal aguentavam mosh e se infiltravam em meios BDSM para justificar que gostavam de bater em mulher). Ao som de funk proibidão, Hladgerd comia o cu de cada com um dildo feito com casca da própria Yggdrasil. “Rrrrranca cabaço, é o bonde dos careca” – entoava o mulherão, com o bafo mais frio que o vento de Galdhøpiggen no inverno.

 

O Quinto Círculo: Rio de Lava de Janeiro (ou Hell de Janeiro)

De um extremo ao outro, chegamos ao cerne do plasma de quark-glúons, onde até minha unha suava. Com uma temperatura de mais de 4 trilhões de graus Celsius, Paulinho me acenou do alto de uma onda de lava. Estava surfando numa prancha feita de cariocas que amam o verão carioca, mas que trabalham no ar condicionado, andam de carro com ar condicionado, dormem no ar condicionado, e não suam quando fodem. Por quê, adivinhem? Porque não fodem.

Mercadão ficou do lado de fora, porque o calor podia derreter a maquiagem e o botox, mas Paulo Freire me recebeu de braços abertos. Sem abraços e sem encostar porque estava calor PRA CARÁLEO: ali era o círculo da ira, do ódio, da raiva, da cólera, da disenteria, da tuberculose, da lepra… não, pera. Segundo ele, este círculo já tinha sido frio, na época de Hitler e zás, mas ficou quente, para se modernizar e se inspirar no Rio de Janeiro e seu clima favorável à milícia, digo, ao cristianismo, digo, ao ódio.

Mas que raios você, logo você, está fazendo aqui? – indaguei. E Paulinho estava ali, pasmem, para educar todos os amantes da treta, propagadores de ódio, insufladores de peleja. Paulo Freire era Kratos, o Deus da Guerra, educando a intolerância com a intolerância. Tipo, sei lá, um olho-por-olho meio maquiavélico. Mas o que funcionava ali era isso: o Paradoxo de Popper punching nazi, mesmo quando não era nazi (só para aprender a deixar de ser babaca mesmo).

Este círculo abrigava desde os uvapassistas até os cristãos-defensores-da-pena-de-morte. Mas as maiores alas, apesar das alas inúteis como “mães versus mães de pet” terem crescido consideravelmente nos últimos tempos, ainda continuavam sendo Futebol, o ópio do povo, e Religião, o ódio do povo. Despedi-me dele para continuar o tour, quando o suor começou a ferver e borbulhar.

 

O Sexto Círculo: a Igreja Homeopática do Terraplanismo Ariano

Este era o lar de Walter Mercado, a terra das fantasias, dos unicórnios, do Papai Noel, do Coelhinho da Páscoa, de Deus, e do Mister M. Uma terra onde Adam Sandler poderia ser ator e Los Hermanos seriam capazes de tocar música (e Jorge Vercilo também). Uma terra em que Luiz Philippe de Orléans seria príncipe e faKim News Kataguiri se tornaria uma divindade. Uma terra onde Dragon Ball Z seria bom e se chamaria Cavaleiros do Zodíaco: a terra da astrologia, da homeopatia, do terraplanismo, do coaching.

Ao longe, a carequinha coroada rei daquele círculo brilhava; era ele: NO ECZISTE! – bradou. Papa Quevedo comandava a Igreja Homeopática do Terraplanismo Ariano, com a bíblia escrita por Richard Dawkins, e suas várias congregações. A Congregação dos Abortinhos Vivos (ou Bebês do Walking Dead), por exemplo, abrigava os adeptos do movimento antivacina, que eram obrigados a tomar injeções de extintores de incêndio, enquanto viam seus bebês sangrarem pelos olhos e suas peles derreterem em pústulas.

Em uma construção mais distante e moderna ficava o chamado Grande Colisor de Coachs, onde canhões de energia quântica arremessavam coachs quânticos, fazendo-os colidirem em velocidade quântica, para tentar mudarem o mindset quântico deles. Eles acabavam depositados num fosso, como uma massa disforme que parecia o Krang, tal qual o chiclete mastigado que não funcionava como o cérebro quântico deles.

 

O Sétimo Círculo: Vale do Diglett Desmaiado

É um vale, mas não “O” Vale. Aqui só tem hétero-top. É dividido em duas bandas de bunda: a esquerda e a direita. Na esquerda, habitam os esquerdomachos, de barbas floridas, saias hippies e sandálias. São maconheiros e ateus/pagãos, poliamorosos e paz e amor, iogueiros e tântricos, e mais feministas que a maioria muitas mulheres. No lado direito, estão os machões-faz-arminha-com-a-mão. São cristãos-conservadores e cheiradores, crossfiteiros e homebrewers, tiram selfies dentro do carro com óculos escuros, se vestem de mulher ou saem sem camisa só com quepe no Carnaval, e traem a esposa/namorada com quem der mole (inclusive com o parça, mas só no sigilo). Foram condenados a uma eternidade medindo o pau um do outro, e à masturbação mútua, enquanto um buraco gigante no meio do Vale os soterra com caralhinhos voadores. Quem demorar mais que três minutos para gozar, é libertado e pode ir para o Céu (em 25 eternidades ainda não houve registro de alguém que tenha conseguido).

 

O Oitavo Círculo: Retrospectiva da Globolixo

Os mortos ali não foram pessoas em vida, mas sim robôs descerebrados e desengonçados replicantes de seres humanos. As cabeças eram guilhotinadas e abertas, para que tirassem os bagulhos de dentro. De aventais e máscaras cirúrgicas, os demônios eram Frankensteins de fezes, liderados por um grupo que observava do alto, marcado com suásticas nas testas à la Aldo Raine. O cheiro era um misto de praia do Leblon com metrô de Paris no inverno. Na cabeça vazia, era colocado um cérebro, e ganchos abriam bem seus olhos. A danação eterna, segundo Mercadão (“Ligue Djá!”), era que eles assistiriam toda a vida que viveram, mas agora com um cérebro capaz de raciocinar. O círculo era habitado por muitos militares, mas essencialmente por bolsominions e olavetes. Os olavetes também recebiam um corpo para trabalharem afim de pagar as despesas médicas do próprio guru astrólogo e coach em Filosofia. Em dólar.

 

O Nono Círculo

O Nono Círculo estava vazio. Não tinha nada, nem paisagem, nem nada. Tudo em branco. Ué? – perguntei.

– Ligue Djá! – Mecadão me respondeu.

E eu finalmente entendi.

O Nono Círculo comeu o cu de quem estava lendo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s