A virtude não existe. Não pode ser, nem é, nada além de uma ilusão em massa, criada por um coletivo organizado, difundido e julgado por tal como a prática da moral preestabelecida e concebida. É incentivada, enquanto que o vício, ou seja, a sublevação contra as proibições oriundas da Moral, é desencorajado, marginalizado, execrado e punido. A virtude se resume a um mero julgamento de valor, um reles adjetivo dado a uma prática, ensinada e aprendida, e é aí que se difere energicamente do vício. O vício é violento; e só existe com um princípio ativo de rompimento, de quebra, de destruição dos valores morais ou dos tabus em que uma sociedade se acorrenta. O vício é a violência como causa; enquanto a virtude, passiva e fabricada, só se sustenta através da força, física ou psíquica, e se torna o efeito de tal violência.

A dualidade entre virtude e vício, entre o Bem e o Mal, é um problema que atravessa milênios de História. A dicotomia seca, árida, infértil, que aprisiona as mentes e as sociedades é, senão o maior, um dos maiores inimigos da Razão. Os opostos não podem e nem devem ser encarados como opostos, como duais, como arqui-inimigos: são facetas de mesma essência, e não são limitados e confinados em si, mas extensos, confundíveis, e com margens e graus tênues que separam (e misturam) um ao outro. O frio não é oposto ao calor, mas não existe sem o calor, e pode até ser calor, se comparado a uma mesma faceta mais fria. São graus, escalas, áreas, medições infinitas e indivisíveis que se mesclam entre si, que imergem em uma profusão de diferentes e relativas visões e interpretações.

A virtude e o vício não passam de extremos, como o frio e o calor, de um termômetro extremamente rígido, inflexível e inquebrantável, ao qual chamamos de sociedade. São impressões, conceitos ilusórios, causais ou consequentes, ativos ou passivos, que se tornam leis inquestionáveis para reger uma idiossincrasia estúpida, mas que servem propósitos escusos (massificação, manipulação, manutenção).

Toda sociedade possui a virtude como o Bem, a Moral em prática, enquanto que o vício não passa de um Mal social. O inatismo do vício de Hobbes consolida a sociedade como lar e paraíso da virtude, aprisionando os instintos do homem, em sua natureza maus, com os grilhões da Moral. O vício é a ação humana, a violência, o Mal, enquanto o Bem só existiria com a virtude, com o aprisionamento do homem e sua submissão à Moral. Rousseau contrasta Hobbes, quando afirma que o homem nasce virtuoso, mas, ao sofrer os impactos da Moral, ao ter sua liberdade violada pelas correntes da sociedade, se entrega aos vícios. O embate entre Hobbes e Rousseau é eterno, mas, a um olhar superficial, sempre parece resolvido.

 Ao vincular a existência da virtude ao julgamento Moral da sociedade, Hobbes parece preponderar. Apesar de Rousseau acreditar que a sociedade fosse capaz, ainda que através da virtude inata dos homens, preservada ao extinguir os grilhões morais e a desigualdade, de propagar o Bem, tal virtude, tal Bem não seria uma criação social, uma ilusão coletiva, um conceito não existente. Parece que a virtude, para Rousseau, existe, independentemente da sociedade e da Moral. Mas, ainda assim, a virtude não pode existir sozinha, individualmente, sem o julgamento de outro, sem o parecer de um indivíduo externo. Nem mesmo para Rousseau. A virtude deve e precisa ser comparada se quiser existir, se quiser ser uma virtude.

A sociedade de Rousseau é paradoxal à de Hobbes: enquanto uma promove a virtude, em detrimento dos vícios, a outra combate-a, utilizando-se dos vícios para isso. Enquanto que, na primeira, os vícios são ferramentas para se romper com a Moral, na última, a virtude é utilizada com tais fins. Bem e Mal, virtude e vício se misturam, em uma amálgama de conceitos e interpretações que se convergem na Moral, por si só. E esta Moral, independentemente de ser boa ou má, em termos extremos e inconciliáveis, irá promover a virtude como o Bem, a seus olhos, e condenar o vício, como o Mal, em seus julgamentos. Distorcida ou não, a Moral é absoluta, inquestionável, e é violenta por natureza: ela decidirá o que incentivará como virtude e o que rechaçará, como vício. E aqui, Rousseau parece muito mais coerente que Hobbes: o homem nasce imoral, e a Moral nos corrompe a todos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s