Mimo Brasileiro

Gritaram do Congresso em margens túrbidas

De uma nata ímpia o riso em regozijo

E à noite subjugo em ondas rúbias

Ofuscaram fossas rasas de foragidos

 

Se ao abismo da autoridade

Conseguimos deduzir ameaça e morte

Em teu reto, imoralidade

Escraviza e abandona à própria sorte!

 

Ó palhaçada

Desgovernada

Bate! Bate!

 

Brasil, podre por dentro, enrijecido

De ódio e de egoísmo à merda afunda

Se em teu folgado cu, rasgo fedido

A corrupção se espalha pela bunda

 

Gestante de acúmulo de riqueza

És seco, és fome, pálido desgosto

E no teu futuro, crianças em pobreza

 

Terra largada

Malas de mil,

És tu, Brasil

Ó palhaçada!

São tantos crimes no covil

Que palhaçada

Brasil!

 

Regado eternamente em benefícios

Auxílios-moradia, rombos de fundo

Acordas, ó Brasil, desta novela

Deste acordo com o Supremo e com tudo!

 

Das barragens mais sofridas

Teus sisudos, sujos campos têm mais lama

Nossos políticos são homicidas

Nossos crimes, um silêncio que nos chama

 

Ó palhaçada

Desgovernada

Bate! Bate!

 

Brasil, de hipocrisia seja símbolo

Da cruz que o Estado laico tem pregado

E diga a intolerância desta flâmula

Deus é daqui, mas quem trabalha é o diabo

 

Mas se foge da justiça o endinheirado

Verás que as leis só valem para os pobres

Bandido bom é aquele abastado

 

Terra largada

Malas de mil,

És tu, Brasil

Ó palhaçada!

 

São tantos crimes em Brasília, no covil

Que palhaçada

Brasil!

O Canto das Cotovias

Mexeu na carne preta que restava à frente, enrolou-a na folha de hortelã e levou-a à boca. Mastigou o mínimo para fazê-la engolível, e virou um gole de vernon. Pronto, desceu. Tocou o óleo gosmento que corria no prato e cheirou-o. O farfalhar das ondas que lhe cativara, apanágio de toda a região de Portos Amenos, agora irrigava as narinas em profusões de lagostins pútridos e fezes de gaivotas. Segurou o regurgito de nostalgia, quando foi interrompido por vozes ébrias.

– Que porra você está fazendo? – gritou o primeiro, explodindo o rastro úmido das palavras arrastadas por entre o bigode amarelado.

– Olha por onde anda, babaca. – respondeu o outro, empurrando-o em direção à mesa de Ceresso Laquessante.

Ah, não, de novo não. O mondrongo escorregou e despencou, mergulhando as bochechas imundas no caldo oleoso de baleia. Sacudiu a barba quando tentou se apoiar na mesa, que rachou ao meio. A este momento, Ceresso já estava de pé, esquivando-se da gosma respingada pela cambalhota do prato, que atingiu a careca de outro beberrão. Quando a balbúrdia descambou para arremesso de cadeiras, quebra de mandíbulas e voos de cacos de garrafas, já estava na rua, batendo a porta e isolando azáfama da taciturnidade da noite crua.

Ceresso se encantara com Concharia, o portal ocidental de entrada para Arcádia. Situada entre a Enseada dos Ecos e a Baía Perolada, era a maior do cinturão de cidadelas conhecido como Portos Amenos. Do alto da Colina do Assobio, mansões com guaritas e palacetes murados contrastavam com a aquarela de centenas de botes pesqueiros que vagueavam na tela azul do porto. A maresia inebriava o olfato e a brisa refrescava o rosto jovial. De lá, podia-se ver a cerca pétrea marcando os limites da grande concha de abertura setentrional para o mar; uma muralha que se estendia a rochedos além das ondas, com baluartes acenando flâmulas púrpuras no céu pontilhado de gaivotas, albatrozes e atobás. O Cavalo-Marinho, fortaleza a noroeste, e seus gigantescos píeres abrigavam uma dezena de caravelas de três mastros, a chamada Guarda do Mar, assim como a Cavalaria de Portos Amenos. Recheando o labirinto de vielas que se alastrava do sul até o porto, um conglomerado de choças inchava o centro até a parte mais oriental: o Caldo.

A escuridão escondia os pequenos barcos coloridos, mas ainda podia ver o balouçar dos baleeiros, graças a candeias pendentes e espalhadas pelas esquinas. Mais adiante, uma carraca repousava com as velas arriadas e grandes caixotes no convés. Cobriu a cabeça com o capuz e afastou-se em direção ao breu, subindo a longa e sinuosa Rua dos Finórios, que cortava todo o Caldo.

O chão era um lamaçal fofo e rançoso, que voltaria a escorrer ao nascer do sol. Logo no Primeiro Sino, ou Alvorada, tendas de pescados pipocariam a cada quarteirão, jorrando água turva, sangue de peixe e restos de mariscos que se aglomerariam em correntes de imundícies. A xepa inundaria as ruelas, batizando o bairro com o nome popular. Ali, moscas-varejeiras beberiam do Caldo, antes de depositar larvas em indigentes seminus, enquanto ratazanas nadariam para lamber velhas aleijadas por baixo dos vestidos. Canelas bolhosas acelerariam, indo e vindo numa corrida impossível contra a miséria. Mulheres esticariam as crostas cor-de-mel nos cantos da boca, mostrando gengivas avermelhadas e intumescidas, ao desequilibrar-se. Pés descamados em calçados abertos chafurdariam em sopa de vermes, sobre as quais a massa se regozijaria ao esfregar de pústulas que selasse um escambo purulento. Homens com fundilhos pintados de pardo fecal alimentariam as poças, com urinas de jatos negros. Crianças ranhosas de costelas rompantes e abdômen túrgidos pulariam de lá para cá, descarregando atiradeiras em animais pestilentos. Palavras de ordem seriam abafadas por verborragia xucra, em profusão de perdigotos que estalariam nos olhares citrinos e febris do Caldo.

O encanto da costa se esvaíra graças ao interior da cidade. Agora, a maresia cedia à fusão de latrinas, hircismo e doenças, já que lagostins e gaivotas pareciam exalar bálsamo dos Meandros. “A mosca não tem vergonha da bosta, pois dela se alimenta.” – dizia sua mãe, mas queria distância daqueles tempos. O fedor fazia com que os estábulos que limpava quando criança se tornassem rios límpidos da Folha. Olhou para algumas malocas capengas de até um par de andares, num amontoado de argila, toras carcomidas e palha. Suspirou e forçou-se a lembrar da taverna onde estava hospedado, na Colina do Assobio, parte mais nobre da cidade. Afinal, ao toar do Último Sino, ou Sono, cada caminhada pelo Caldo era jogada no abismo de suas memórias, como reafirmação da promessa de nunca mais voltar àquela vida.

Havia poucas janelas acesas, e nenhuma viv’alma na rua. Nem as putas, que desafiavam ora o toque de recolher de criminosos, ora a autoridade das leis contra nudez. Um desafio feito, muitas vezes, em conluio com o próprio cônjuge. Honra que era manchada pela vergonha, enquanto o corpo da mulher era marcado por lágrimas, que escorriam por entre cicatrizes e porra. Durante aquelas noites, apertavam-se os três, uns contra os outros, cansados e sujos, para calarem o desespero. Ceresso sentia-se culpado pelos soluços da mãe, abafados pelo abraço do pai. Aquele lugar, o Caldo, trazia à tona o desespero daquela vida de outrora. E o fedor… O fedor desenterrava a vergonha de tê-los abandonado à própria sorte, ao cair nas graças do Magomestre Krono Ilmarinen.

Em breve, o Primeiro Sino marcaria o início de mais um Labor. Havia seis Labores que chegara em Concharia e, com apenas mais um, completaria uma Maltagem de nenhum progresso. Parou por um instante, e desenrolou o pedaço de pergaminho. Ferro e bugalho marcavam a pele de carneiro, em caligrafia desenhada à pena de ganso:

O canto das cotovias anuncia a aurora

Voam pelas fossas as aves da sarjeta

Pios que não sentiram pena de outrora

Verão o bater de asas da Vendeta

O vento assobiou, acompanhando o silvo das cigarras. Ceresso sabia que a calmaria era máscara que cobria a tempestade de crimes que assolava a região. A cidade era palco de disputa entre várias organizações criminosas, e o Caldo era a estrela. Esfregou o sangue seco com o polegar, e guardou a única pista que tinha sobre o assassinato de Teli Ulgan, o Magistrado de Concharia.

A pala desfiava em maus cortes por cima do couro curtido há Forjas, misturando-o às mazelas do ambiente. O rosto em pele de carvoada, com queixo quadrado e olhos apertados, camuflava-o nas sombras das vielas vazias. Ainda que o contorno fino se movesse em alarde, a violência em Concharia era cortina que o evitava, encerrando espetáculos sobre os mais desafortunados. O manuscrito aprisionava-o ali, no odor da indecência, em tentativas sem sucesso de descobrir qualquer coisa sobre as Cotovias.

A mensagem era clara, porém um passo maior do que aquela facção de maltrapilhos seria capaz de dar, com tentáculos curtos e imprósperos. A escrita resoluta, de tinta rebuscada, sugeria os serviços de um calígrafo, luxo que não se encaixava nos moldes do grupo. O requinte da Camarilha combinaria melhor, não fosse a lambança de sangue e retalhos no corpo da vítima. Os assassinos da Camarilha são limpos e eficientes. Um pescoço quebrado. Enforcamento, ou estrangulamento. Uma lâmina curta no coração. Até mesmo um talho rápido no pescoço, mas eles não se dariam ao trabalho de pregar olhos abertos, arrancar línguas ou cortar pontas de dedo fora. Ainda que atacar o Magistrado fosse sofisticado, aquilo estava mais para uma empoleirada das Cotovias.

Ali estava, portanto, de peito aberto e mão à rapieira, aguardando qualquer contato com o submundo de Concharia e desafiando o delinquente toque de recolher. A lua refletia tons azulados do suor que brotava da moleira endurecida, mas a boca secava o gosto amargo da última refeição. Puxou o odre, e ouviu um breve tilintar, quando esbarrou no saco de moedas preso ao cinto. “Honra é para os ricos. Enquanto você não puder desperdiçar comida, nunca terá tempo para se preocupar com honra.” – seu pai lhe ensinara, quando o tirava de casa para caçar vaga-lumes, na brincadeira que ocultava os desafios maternos. Mas agora, apesar das vestes surradas, podia se preocupar com honra.

“Uma derrota honrada vale mais que mil vitórias desonrosas.”

Mais que isso; Ceresso Laquessante vivia sob as As Sete Leis da Cavalaria, ou Radamanto. Deu uma golada, para lavar o acre de gordura mal cozida. O nariz largo separava bochechas alquebradas sob a tez franzida, e contraiu-se em nojo para aspirar o ar pesado. Precisava destruir as Cotovias, e sair daquele antro o mais rápido possível. O vento arrepiou a nuca; o Caldo deixava-o enfermo. Prendeu o odre de volta, mas não houve tilintar desta vez; a bolsa de moedas havia desaparecido.

Olhou para os próprios pés. As botas esmagavam pedaços de carne e pelo, infestados de parasitas. Cascas enegrecidas, trapos desfiados, esterco velho e lenhas podres compunham o restante do patê que transbordava vida à espremida do calçado.  Se algo tivesse caído, ouviria o tinido de umas em outras, ainda que a terra tufada amortecesse e engolisse. Um archote lânguido, ao longe, foi o suficiente para entregar a silhueta trêmula que se esvaiu pela esquina.

Virou e correu em direção ao beco estreito. Cada passo afundava naquela neve de imundícies e o vulto se adiantava, sem sequer olhar para trás. Roupas em varais intocáveis giravam nos fios conforme a lufada da caçada as atingia. O sossego entre Sono e Alvorada e o sigilo das nuvens abafavam os barris e caixotes derrubados no caminho de Ceresso. Não se importava com as moedas, mas estava ali, ao seu alcance, o primeiro encontro com o submundo de Concharia. O vislumbre de desencavar qualquer informação sobre as Cotovias o impulsionava, em determinação que adentrava mais pelas veias do Caldo.

Saltaram sobre a cerca de uma pocilga, atravessaram a ruína de um mocambo abandonado, subiram carroças vazias e carunchosas, e passaram por estaminés fechados e apagados. O ladrão contestava, com sucesso, um dos homens mais rápidos de Arcádia. Chegaram a uma rua que fazia um L, bem em frente à porta com uma tartaruga com cabeça de cabra. O ladrão derrapou, sem cair, mas ainda assim perdendo fração de tempo valiosa. Ceresso atirou a rapieira, que atravessou o capuz e o prendeu com afinco no meio dos olhos da caricatura ovídea.

O ladrão mergulhou no leito pútrido do Caldo. Levantou-se e voltou, para forçar o punho que emergia da madeira. Filetes de metal formavam um olho, com traços envoltos do cabo fino. Imaginou, por um instante, o quanto deveria valer aquela arma. A lâmina jazia imóvel. Pendurou-se, mas as luvas de couro pingavam o sebo do solo. O cavaleiro se aproximava em furor.

Tentou se despir tarde demais. Ceresso lançou-se sobre o ladrão, rasgando o casaco longo e jogando-o sobre uma carroça, que cedeu. Enfiou a mão pelo cabo e os ornamentos retorcidos do guarda-mão acomodaram-na. Num giro, deslizou a rapieira para fora da madeira, deixando o terceiro olho na cabra de casco. Embainhou-a e chutou a boca do ladrão.

“Os indignos também são dignos da cortesia.”

Não ali, no Caldo, no infame e vil covil dos infames. O homem se escorava na roda lanhada, e limpava a barba cerrada com a manga. Não… um cão pestilento é mais digno que este verme. Desceu o punho cerrado sobre o lábio cortado, manchando mais ainda a camisa clara do homem. Os olhos de Ceresso ardiam em fúria; queria despejar ódio. Extravasaria o asco do Caldo naquela cara suja, escondendo vergonha com brutalidade e deformando os ossos do código que juramentara. Uma prancha desprendeu de cima da porta de três olhos, balançando em pêndulo e em torno de si mesma.

– Rá, agora entendi! – riu em agonia, apontando para a tábua que girava. – O Jabuti-cabra! Que velho filho da puta! – o homem se divertia sozinho, com o beiço inchado e rindo de bater com a mão na própria perna.

O canto das cotovias anuncia a aurora…

Ouviram o sibilar de pássaros. Num último esforço, o homem irrompeu em escape, mas Ceresso o deteve. O cavaleiro bufou por entre os lábios largos, enquanto o ladrão apertou a boca machucada e larga. Os cabelos emaranhavam-se sobre o rosto pálido, e uma falha cor da lua brilhava no bigode. Rugas curtas despistavam a juventude, mas camuflavam as quase quarenta Lavouras. Não sorria mais, e arfava em sobressaltos. A noite clareava. Os olhos cerúleos esbugalharam-se, mas ignoraram Ceresso. Procuravam por outra coisa além, atrás, aos lados, através e acima deles.

– Você não está ouvindo??? – balbuciou, ainda perdido ao redor. – Cara, as Cotovias, elas estão vindo…

***

Filhas de Ninfas

Revolvem sobre a relva
Pele e púbis descobertas
Regozijam-se pela selva
Escorrem, e gemem abertas.

Rama roça no rosto
Pétalas em alvoroço
Caule, seu encosto
Seiva humana como esboço.

Remetem à raiz, retesam
Lábios pálidos, sulcos esticados
Contrações que, o júbilo, represam
Vulvas olorosas, grelos eriçados.

Reles raparigas em rito régio
Freixo, sálvia, sarça e faia
Comungam, em baile egrégio
Ecoando feitiços de Gaia.

Redenção sem rédeas
Da vida com a vida
Mães de ideias
Crias de dríada!

Rude revoada de rabos
Choro do céu, na terra que implora
Por bosques, flores e prados
Fada que namora, sibilos afora.

Requinte de relevos em recreio
Ciranda noturna de risos e gozos
Lacunas e bocetas em desvelo
No sabá de mamilos moços.

Evoé

Na dobra da moral.
No bem e no mal.
No sexo, e no imoral.
E até no banal.

Nos sonhos e no tesão.
Ao pisar no chão,
No voo em vão,
No sim e no não.

Na arte,
Na cidade,
No campo,
E até no trampo.

No caos do cotidiano,
No deleite da vez.
Naquele desejo insano,
Na embriaguez, na nudez.

No ódio e no amor.
No turbilhão que sou.
No querer e buscar mais,
Na guerra e na paz,
Nas ideias desiguais,
Nos desejos carnais,
Vós cantais:
“Somos pequenos animais!
Liberdade, Ele nos traz!”

Isso tudo e tudo o mais,
É Dionísio quem faz.

Fada

Fugaz, se balança
Em berço arredio
Toca-se, mansa
E perturba o rio.

Ela vai, ó folha avoada
Que brinca no incerto
Sem rumo, carta marcada
Longe, mas sempre perto.

Ela serpeia o caminho,
Um sino do inevitável
É canto do desalinho
Que não se faz louvável.

Não quer, não precisa
É anjo, é fera indecisa
Pé após pé, ela pisa
E improvisa, improvisa.

Cabelos ao vento
Perde-se no mar
Dançando ao relento
Sem parar, sem parar.

Estica-se em braços ao léu
Ela sobe, pula, ao chão
Se joga, e desce do céu
Sem pudor, nem qualquer razão.

Anca ditosa, orvalho de luz
Goza no pó, deita no ar
Ó, liberdade que seduz
Ela é rainha, sem se importar.

O Último Recurso

Archotes sibilavam na névoa corriqueira da Pantomima, região pantanosa ao sul de Darmanoff. O extenso lamaçal era o habitat de muitas criaturas, mas nenhuma delas precisava de luz para se orientar. Ainda assim, as chamas tremeluziam formando uma trilha em direção à Lamanegra, lar da Ararcânia, matriarca dos elfos das sombras.

A umidade e calor daquele pântano não eram convidativos a nenhum cavaleiro, trazendo suor às pesadas armaduras e tornando-as mais desconfortáveis. Os cavalos haviam ficado para trás devido ao caminho estreito e sinuoso, bem difícil para manejá-los. Amontoados de mosquito zuniam em movimento, como nuvens pontilhadas pouco acima da água turva. Por vezes, o passo afundava na lama e desequilibrava o mais desatento, mas o Duque de Aquavento não tonteava. Azel acompanhava-o sem vacilar, bradando tapas no ar para afastar os insetos mais ousados. Ambos marchavam com firmeza, enquanto insetos embrenhavam-se por entre o couro que forrava as placas de metal. Qualquer gota de suor, ou sangue, era iguaria naquele manancial inóspito e a natureza julgava-a valorosa o suficiente para descartar dezenas de criaturas esvoaçantes. Sentiam-se observados ao longe, mas a neblina espessa escondia os olhos. Curiosos ou famintos, o importante é que não compartilhavam a ousadia dos pequenos insetos e jamais se aproximariam dos fachos que protegiam os andarilhos.

A torre de menagem erguia-se solitária no brejo, regendo orquestra de movimentos que tocava inércia para olhos inaptos à noite. Enquanto apenas a gigantesca torre situava-se sobre o charco, Lamanegra era um complexo subterrâneo, lar de uma das cinco linhagens de magos de Arcádia: a família Balthus. A magia dos Balthus era responsável por manter a Pantomima mergulhada em escuridão permanente, a chamada Longa Noite, que também ocultava a ojeriza por qualquer presença estrangeira. Por isso, aquela região era provavelmente a única onde os elfos das sombras, de silhuetas macilentas e pelos negros, sentiam-se seguros. Também conhecidos como elfos marginais – e muitas vezes apenas como marginais –, eles espreitavam o reino de Arcádia com olhares carmesins e dedos sem unhas, prontos a despejar histórias de sofrimentos e loucuras. “Pele gris, intenções vis.” – já dizia um antigo provérbio élfico sobre seus descendentes mais sombrios.

– Malditas pestes! – Azel resmungou de maneira incompreensível quando quase trombou com o irmão, enquanto tentava coçar embaixo das axilas.

– Somos esperados pela Magomestra das Trevas: eu, Aarond Sephiro, Duque de Aquavento; e este é Azel Sephiro, Comandante da Guarda de Aquavento. – anunciou ao porteiro.

Uma figura encapuzada da cabeça aos pés guardava o portão de ferro em frente a eles. Não era o modo dos homens civilizados da Arcádia, receber nobres de maneira tão pobre e enfadonha. Em Aquavento, um membro da Tribuna jamais teria de caminhar aonde quer que fosse. Estavam ali, fatigados, enlameados, suados, picados por sei lá quantos insetos, e recebidos por um ignóbil. Mas Aarond não era Duque à toa: acumulava os cargos de Magistrado e Embaixador, e sabia bem que os marginais eram famosos justamente pela falta de hospitalidade aos estrangeiros. Antes daquela jornada, juntara o máximo de informação, não poupando despesas. Duas carroças de erva-de-mantícora, planta medicinal rara das montanhas de Dracon, foram enviadas aos sábios d’Ouro dos Tolos, em troca dos Pergaminhos Perdidos de Lince. Mais quatro caixas de pé-de-visgo, cogumelo alucinógeno popular e ilegal, e três sacas de moedas de ouro também ajudaram na preparação para lidar com o exótico. Precisava estar preparado; afinal, os favores de Damiana Batlhus eram a última chance de salvar Azel.

– Eu os guiarei até Ararcânia. Venham.

Seguiram o homúnculo, que caminhava com dificuldade, pisando sobre pedras bem encaixadas e polidas. Tomaram as escadas circulares, parcamente iluminadas por fogos-fátuos que acendiam conforme ascendiam. O encapuzado permanecia em silêncio, mas não fraquejava. Subiram centenas de degraus. Olhou para trás e franziu a testa, forçando os olhos contra a névoa que os envolvia com fuligem seca. O porte descomunal de Azel parecia ter seu peso sobre as maçãs do rosto avermelhadas e têmporas encharcadas. O tilintar das robustas placas que cobriam todo o corpo tornava-se mais espaçado. O silêncio alimentou-se de cada arfada, até que ouviram um grito agudo ao longe. Um surto de vitalidade engoliu a fadiga, e Azel, imediatamente, preparou-se para desembainhar a montante.

– Isso não será necessário aqui. – o Duque parou o braço que agarrou a espada forjada de nanoaço. – Estamos perfeitamente seguros. – mentiu em voz alta. Mas não sabia se mentia para si ou para o irmão. Procurou algum conforto na figura decrépita que os guiava, em vão. Ela não se deteve, apesar de ter farejado medo.

– Estamos passando pelas masmorras. Os aposentos reais estão acima, no topo desta torre. – e continuou em frente.

– Vamos, Azel, guarde isso. – sussurrou. – Estou contando com você, porra. Não vá, além de jogar fora sua última chance, causar um incidente diplomático. Logo aqui, nesta porra de pântano fedido, e conosco quase no topo da Lamanegra.

– Caralho, Aarond, você sabe que odeio estes filhos da puta de vestido. – recuperando-se do susto, Azel abandonou a posição de guarda e preteriu o ambiente à volta para fitar o irmão. Largou o cabo da arma e voltou a ofegar.

Sim, sei que você os odeia, Azel. Aliás, acho que a única coisa que você sente é ódio. – o Duque respondeu-o mentalmente, pois jamais esquecera os trigais prostrados pelo vento do outono passado, manchados pela fuligem do que uma vez foram vestes de camponeses.

Naquela tarde, meia dúzia de famílias chegaram à Vila Hermindel, em caravana de fome e desesperança. Os relatos dos abusos que sofreram com o antigo Senhor, um pequeno agricultor ao sul, comoveram a população. Mais à noite, o tal Senhor, que não tinha nada de pequeno, muito menos de sulista, chegou à vila com a Guarda e revelou-se um dos mais poderosos Senhores da região próxima. Arrancou cada viv’alma de sua choupana, aglomerando-os no Sino, a praça principal. O Magistrado tentou dialogar com o comandante daquela invasão absurda, recebendo uma corda que cortou os cantos da boca e apertou-lhe a nuca. As poucas Valquírias que ali residiam, membros da Tribuna que mediavam conflitos, foram dominadas pela ousadia e surpresa da incursão. Para inutilizá-las, os cavaleiros imediatamente cortaram uma perna de cada. Lágrimas, gritos e dor silenciaram os estrugidos das cigarras. O atordoamento cedeu ao terror, e os habitantes encolheram-se e soluçaram. Enquanto isso, o resto da Guarda invadiu o celeiro e o estábulo, arrastando os refugiados. Como já o conheciam, alguns tentaram, em vão, correr. O desespero irrigou o solo com mais sangue. Famílias, vizinhos e até desafetos abraçaram-se em roda, em meio àquele caos. A fogueira foi acesa e emanou fumaça negra de carne e madeira, alimentada por homens em cinzas, mulheres em brasas e bochechas derretidas. Ulos ecoaram por milhares de flechas de distância, em meio ao júbilo acanhado de Azel Sephiro, que comandava aquela vila a arder até a última lasca.

As pesadas portas foram abertas pelo hominídeo e revelaram o salão amplo de várias paredes de blocos de pedra. Pilares grossos formavam áreas de penumbra, rodeando no centro do chão um símbolo pintado que o Duque tentou decifrar, mas não conseguiu. Estantes de cedro já apontavam sinais de idade avançada e cobriam paredes inteiras. Círios bruxuleantes refletiam a prata dos candelabros de chão. O colorido fosco de capas e o movimento das sombras poderiam trazer vida ao ambiente, mas ali, no covil da Ararcânia, pesaram sobre suas pálpebras. A atmosfera soturna apertou seu coração em desânimo. Do outro lado, porém, a abertura na pedra assoprou alguma esperança, com a vista da sacada iluminada por Eerin e Eerina, as luas de Arcádia. Aarond ouviu gemidos ininteligíveis e meneios de silhuetas, em um leito coberto pela escuridão.

– Fique aqui fora. E não arranje confusão. – soprou a Azel, ganhando tempo a fim de criar coragem. Afinal, encarar a Magomestra das Trevas pela primeira vez não era tarefa simples. Inclinou a cabeça e apertou os olhos. Sentiu a têmpora espirrando medo e ouviu o espatife do suor na caneleira polida. Inspirou fundo e passou pelo pórtico.

– O Duque de Aquavento, Ararcânia! – o ancilário se prostrou e recuou, fechando as portas atrás de si.

Estamos perfeitamente seguros. – repetiu a si, mas desta vez teve certeza de que a mentira era pra ele mesmo. Precisava acreditar nisso, mas não conseguia. As chamas vacilavam e as sombras aterrorizavam. Os gemidos se tornaram mais intensos e o rodearam, enquanto parecia inalar pó estéril de cinzas. Os joelhos fraquejaram, mas um estalar de dedos iluminou a cama. Lá estava ela, em visão turva. Candelabros sossegaram e as sombras se limitaram às paredes. Agora podia assimilar melhor o cenário e o temor deu lugar à repulsa.

Lábios tênues encaravam-no enquanto Ararcânia apertava, entre suas coxas, um homem nu. Fixou os olhos rúbeos no Duque, enquanto rebolava como um pêndulo. Completamente nua, sugava gemidos a cada esfregada da pube lisa, como um aríete acinzentado de curvas esguias. O leve balouçar dos mamilos em riste contrastavam com a empolgação da ciranda dos quadris. O amante sequer notara-o, mas Damiana Balthus enfrentava o convidado com ferocidade, ao mesmo tempo que domava um potro moribundo apenas com a pelve.

– Sei que sou uma visão atordoante, meu caro Duque, mas não se esqueça que você está na presença de uma Magomestra. – ela parecia não se divertir apenas com a boceta, mas também com o estupor do visitante.

Joguem toda aquela porra fora! Foi a primeira coisa que pensou em fazer sobre os escritos e amontoados de pergaminhos sobre cultura e estilo de vida dos elfos das sombras. Nem o velho MacGur, esmoleiro de Aquavento que trocou a prosperidade como mercador itinerante na Pantomima pelo vício em malte barato, fora capaz de alertá-lo para as rudezas e estranhezas daquela cultura. Ou daquela marginal. Ainda assim, ela era uma Magomestra, maga integrante do Alto Conselho.

Dobrou os joelhos sem pestanejar, em reverência. Ainda que o ônus da diplomacia lhe conferisse livre-arbítrio, a obrigação com a Cavalaria da Ordem de Marfim não lhe permitia muito além da submissão incondicional aos magos. Maldito seja o Radamanto! Espanto ou repulsa, nada justificava o erro grotesco que cometera. Merda! Puniu-se com ofensas silenciosas à sua capacidade intelectual.

– Como Cavaleiro da Ordem de Marfim, peço perdão à Magomestra das Trevas. Suplico-lhe para que tal displicência não seja julgada como afronta.

– Levante-se, querido. Não julgo ninguém pela submissão, apesar de apreciá-la. Ao invés disso, dou-lhe boas-vindas à Lamanegra. E imagino que não se importe de tratarmos nossos assuntos enquanto termino este aqui. – continuou, sem interromper o ritmo com que fodia o homem até os ossos.

Que porra… Aarond Sephiro não entendia o que acontecia ali. Não sabia se era visto como um reles cavaleiro subalterno, irrelevante aos olhos de um Magomestre, ou como um nobre membro da Tribuna, Magistrado e Embaixador de Aquavento. Olhou, pela primeira vez, com toda a atenção possível para aqueles rubis, duros e cintilantes. Abandonou a dúvida quando suspeitou que Damiana Balthus não se importava com títulos ou hierarquia.

O rosto fino de contornos suaves não refletia a idade, ainda que têmporas fundas e escuras destacassem os olhos grandes. Orelhas apontadas emergiam dos cabelos pretos, grossos e emaranhados. Era difícil admirar o coito público ao qual fora invocado sem consentimento, e torceu o nariz, desviando, discretamente, os olhos. Mas o constrangimento unilateral não era bastante para que os desviasse por completo. Observou o quique das costeletas trançadas e molhadas nos ombros, enquanto a cintura avançava e recuava, sem esmorecer. Aquela criatura crua e suada, mesmo em ato vil e sujo, emanava beleza capaz de enrijecer um clérigo.

– Você sabe porque me chamam de Ararcânia, Duque? – mordiscou o lábio enquanto colocou-se de cócoras para desabrigar e sentar de uma só vez no falo latejante do corpo pusilânime.

Pouco se sabia sobre Damiana Balthus. Não havia muitos relatos confiáveis sobre sua personalidade, aflorando aqui e ali superstições esdrúxulas sobre o pós-morte. Não era para ser diferente, já que a história da família fora amaldiçoada com a descoberta da prática da necromancia. Com o passar de mais de milênio, história e lenda tornaram-se una. “Mitos são endurecidos na forja da ignorância”, dizia Krono Ilmarinen, Magomestre do Tempo. E foi assim que surgiu a alcunha de Ararcânia, que, em élfico, significava Aranha-Mãe.

– Sim, Magomestra.

– Vamos, meu caro Duque, entretenha-me. E não me poupe dos detalhes. – elevou a voz, em meio a cada chiado agonizante que arrancava com a colisão das nádegas contraídas em coxas amolecidas.

Falhara em qualquer etiqueta desde que chegara ali. Sentia-se perdido, ainda que tivesse se preparado tanto para aquele encontro. Mas agora podia se pendurar naquela resposta, recuperando a trilha e provando ao próprio ego que não fora tudo em vão. Ali estava a oportunidade de se assentar em terreno firme, após o exaustivo voo de ganso que experimentara. E que porra de voo alto! Com direito a piruetas e o caralho! Caralho. Caralho que não cedia à massagem da vulva acolchoada, atrapalhando o pouso do Duque no mundo real. Mas a beleza de Damiana amenizava, e reduzia o impacto da repulsa a mero desconforto.

– Os elfos das sombras da Pantomima acreditam que Damiana Balthus, Magomestra das Trevas – começou, tentando se concentrar na citação e borrar da vista a ninfa mórbida que sentava sem pena, mas não se satisfazia –, logrou reanimar uma aranha já sem vida, de maneira permanente. É resultado sem precedentes, ainda que tivesse usado a necromancia, prática criminosa e rechaçada por toda civilização conhecida nas Sete Terras. Caso este feito seja atestado, a maga poderá ter atingido uma comunhão com os Meandros que nem Demodeus Balthus, descobridor da necromancia, teria alcançado.

Aquele homem estava quase inerte, ainda que balbúrdia sem fôlego fugisse por entre os dentes. A Magomestra se ajeitou, diminuindo o ritmo, apoiando-se nas próprias virilhas. Sorriu para o Duque, trincando os lábios em deleite, com a boceta já preenchida até o talo. Ainda trotava, mas abandonara o galgar, como se quisesse ouvir e preparar um clímax. Puta merda. Que ela queria com aquilo? Quando aquela porra iria acabar? Suspirou e, para sobreviver àquele olhar lascivo, continuou:

– Há rumores, entretanto, de que o ritual promoveu amálgama entre demiurgo e criatura-alvo, com permuta de traços comportamentais entre ambas. Superstições se consolidaram em lendas sobre uma espécie de aranha inteligente na região norte da Pantomima, enquanto outros boatos… – engoliu a saliva para pronunciar com cuidado as próximas palavras. E decidiu fazê-lo num tom de voz mais discreto e devagar. – cuspiram ultrajes sobre vítimas de cópulas da renomada maga. Desde então, Damiana Balthus começou a ser reverenciada pelo próprio povo da Pantomima como uma espécie de rainha, recebendo a alcunha de Aranha-Mãe, ou, em sua língua materna, Ararcânia.

No folclore das massas, a aranha era conhecida por assassinar o parceiro após a cópula. Ainda que isso acontecesse em pouquíssimas espécies, Aarond não conseguiu pensar em outra coisa. Era isso. Puta merda, ela vai matar o cara… ali mesmo! Agora. Na sua presença! Arregalou os olhos, e o queixo pendeu. A Magomestra fechou as pernas sobre o corpo estendido. O abdômen retesou e dentes rangeram, num sorriso cínico que não moveu os olhos do Duque. O homem agarrou o lençol, contorceu-se e envergou-se para o alto, sustentando a maga no ar. Aarond estremeceu, mas não desviou o olhar. Um guincho de dor e prazer zuniu, quando o corpo despencou sobre a cama.

– Você me julga mal, caro Duque. – Damiana levantou-se, com o leite seminal reluzindo e escorrendo pelas estrias do adutor magno. Vestiu-se com um robe prata, atando-o na cintura, enquanto o Duque se recuperava do susto. – Lendas, apenas lendas. Escritas por alguém que, digamos, não tinha a mínima estima por mim ou pela minha família.

E quem teria uma imagem sua de bom grado, quando apresentava-se a um estranho com tal comportamento? – o Duque perguntou a si, mas sem pronunciar nada.

– Venha, vamos nos sentar. – e levou-o pelo ombro.

Largaram o homem sob os lençóis de linho, e circundaram as colunas. Do outro lado, cadeiras acolchoadas abraçavam uma pequena mesa redonda. Um estalo acendeu o candeeiro e desvelou uma dupla de cálices que parecia esperá-los, junto à garrafa ocre e antiga. Sem cerimônia, a Magomestra pôs-se a enchê-los com vernon, malte puro dos trigais de Corredonte.

– Sabe o que você acabou de ver, Duque? – entregou-lhe o cálice enquanto se sentavam.

Perversão? Seja qual fosse o tesão que movesse a Magomestra, o Duque inferia que receber um forasteiro, nobre ou não, com tamanha falta de pudor só poderia ser sinal de insanidade. Jamais soubera de algo parecido, como comportamento dos marginais ou de qualquer outra criatura civilizada. Aliás, não tinha conhecimento sobre qualquer sociedade que encararia tais atos sem, no mínimo, estranheza. Aquela devassidão, perpetrada com banalidade, desafiava o Duque.

Ainda que Aarond tentasse encará-la apenas como inapropriada, a Magomestra deliciou-se com o embate interno. Como cavaleiro, a autoridade da maga era inquestionável. Como cidadão, sentia a necessidade de denunciá-la por obscenidade, mas não podia. Precisava dela. Damiana Balthus claramente torturava-o, instigando medo entre a necessidade e a repulsa que borbulhavam em seu imo. Para o Duque, ela pisou em leis, cuspiu em sua cara e tacou o foda-se para Arcádia e o Imperador. Precisava, porém, fechar os olhos. Mais que isso, precisava mostrar que não estava ali na qualidade de cavaleiro, ainda que a vontade de coletar sua cabeça e apresentá-la ao Imperador lhe apetecesse.

– Não, Damiana Balthus. – exacerbadamente, recostou-se na poltrona – Por favor, esclareça este humilde Duque.

– Liberdade. Liberdade para mim, liberdade para os elfos das sombras. Liberdade para toda Arcádia, e liberdade para seu irmão, Azel Sephiro.

Talvez ela e o irmão tivessem mais a ver do que pensara. Damiana Balthus era o último recurso para intervir na investigação das Valquírias contra Azel, e precisava conquistar apoio a qualquer custo. No entanto, imaginou que ela não apenas o salvaria, mas também compreenderia as ações de seu irmão. Um calafrio percorreu a espinha. Receava que a insanidade à qual se submeteria perpetuasse a do irmão, ao invés de protegê-lo. Seria justo? Não sabia e não se importava; ainda mais agora que a Magomestra parecia saber de suas intenções. Mas não poderia se entregar facilmente.

– Espalhar esta imoralidade por todo o reino? – viu a deixa para dar vazão ao asco que a devassidão que presenciara lhe causara.

– Não, meu caro Duque. Espalhar-me pelo reino. Imoral, por exemplo, foi o que aconteceu em Vila Hermindel.

Ela testava Aarond Sephiro. O Duque era, talvez, o imago, indivíduo não tocado pelos Meandros, mais poderoso de Arcádia. Como Magistrado da cidade mais próspera de Corredonte, controlava a Guarda de Aquavento e dominava grande parte das rotas comerciais entre a capital do reino, Darmanoff, e o mar mais próximo. Isso era suficiente para lhe garantir influência nas cortes da Dinastia Calisto, que regia o império há centenas de gerações, desde a Guerra dos Conselhos. Aarond conhecia o poder da Magomestra de relatos e sabia que, ainda que estes fossem exagerados, seria morto antes de desembainhar a própria espada. Ali, em Lamanegra, no covil da Ararcânia, já chegara nu, mais que a própria maga estava há pouco. Agora, no entanto, fora despido violentamente por palavras. Damiana Balthus o desafiava, arrancando hipocrisia como se drenasse pus de uma ferida exposta. Não iria funcionar. Não contra ela. Mas não iria abdicar da pompa encenada, e a trataria de igual para igual. E decidiu deixar passar em branco aquele insulto.

– O que quer dizer com “espalhar-se”? Já não basta o título de “rainha” do próprio povo?

– Ararcânia é um título. É um simples epíteto, um praxe. Sou prática: quero ser livre, e não apenas dizer-me livre. – secou o vernon do cálice, degustando o trago antes de jogá-lo para dentro.

Ela insistia em tal “liberdade”. Porra, ela era uma Magomestra, e membra do Alto Conselho! Que porra de liberdade que ela quer? Ela já é livre! Caralho, ela fodia com aquele maldito na minha frente! Não o fez, mas poderia tê-lo matado, e não teria de responder a ninguém. Somente ao… Engoliu a seco. Relutou a compreender o sorriso que se esboçava nos lábios graciosa daquela marginal. …ao Imperador. O Duque supusera que Damiana Balthus pediria um preço alto, sem qualquer barganha; um preço que jamais pagaria, a não ser que a vida do irmão estivesse em jogo. Mas não podia conceber aquilo.

Eles eram meus! Meus, porra! – fora o que o Aarond Sephiro ouvira do irmão quando questionou o porquê da Vila Hermindel, em esforço retórico. Tal resposta inesperada revelou a demência daquele com quem dividira a infância. O ódio com o qual cuspiu aquelas palavras, somado à opacidade das pupilas, refletia um vácuo de emoções com o qual não conseguia lidar. Os olhos do Duque se encheram quando percebeu que, em algum ponto, perdera o único membro da família Sephiro para o vazio instável que crescia dentro do irmão. Não queria estar sozinho; recusava-se a ser o último de linhagem tão gloriosa. Tentou de tudo, mas a esperança de salvá-lo converteu-se em angústia quando sua influência não impediu que o Alto Conselho negasse ajuda a Azel. À porra do seu irmão gêmeo! Caralho, sua única família! Por isso estava ali: a Magomestra foi quem se absteve por Azel, e era a última chance de intervenção a favor. Agora, no entanto, teve certeza de que ela cagava para títulos e hierarquias. Que queria medidas práticas, assim como ele. Extremas talvez, mas ainda assim queria vê-las acontecer, colher os frutos em curto ou longo prazo. Ela queria a Torre de Marfim.

Aracânia engendrara uma rede de dúvidas ao seu redor. Qualquer passo em falso seria o fim. Para ele e seu irmão. Puta merda, onde fora se meter? Pior: com quem fora se meter? Mas tinha uma única certeza: precisava concordar com quaisquer demandas se quisesse sair de Lamanegra com vida. Ironicamente, experimentou aquela liberdade à qual os elfos das sombras eram submetidos: a ilusão do livre-arbítrio. Sabia demais e não tinha outra opção a não ser concordar com as demandas da marginal. Estava ali, como uma mosca caída na teia, e sabia que, quanto mais se debatesse, pior seria. Mas sua boca se moveu sozinha.

–  Você quer ser livre… das leis. Do Alto Conselho. Do Imperador.

– Quero liberdade para toda Arcádia, caro Duque. – Damiana Balthus levantou-se e discursou numa dança dramática de rodopios e punhos cerrados. – Quero a Longa Noite. Quero demolir esta velha, podre, corrupta Arcádia e construir uma nova, justa e livre de qualquer amarra…

Serviu-se de mais vernon e tomou de um só gole. Os olhos de Damiana Balthus arderam como brasas incandescentes, e ferveram alma em ódio. Ali, as chamas da vingança consumiram sanidade, até restar apenas um horror que nem a beleza da carne fora capaz de aplacar.

– Ah, e quero foder a Imperatriz em praça pública, com Adam Calisto e todo o reino como testemunhas.

***

Achaque

Verte pelo rombo, em amargura vil
O vazio jorra, efervescendo o covil
Num ato, tapa-se com rudeza viril
Rechaça todos, cuspindo, hostil.

Desespero do íntimo, celeuma
Pandemônio, impávido suplício
Fúria da virga, indômita neuma
Traição da razão, à qualquer indício.

Ferida aberta, aparência crua
Nojo, pele. Navalha, carne nua.
Despropósito que nada atenua
Excrucia a dor que nunca recua.

Amor e ódio, sem pudor algum
Fadiga dos limites, auge e fundura
Belo e iníquo, em lugar comum
Machuca; dói; fardo que perdura.

Corpos; mentes; zumbis na multidão
Sufocam o grito, mas surdos estão
Espinhos em volta, a velha solidão
Na abundância, quando todos se vão.

Sonhos derrotados, vida sem lei
Desejos apagados ao léu
Alma de plebeu, na cútis de rei
Por si mesmo, tido como réu.

Nas margens ou seios do Aqueronte
Alívio que não importa o monte
Ilusão que ferve no horizonte
No berço, com Hades ou Caronte.

A Morte do Cisne

 “Combater e morrer é pela morte derrotar a morte;
Mas temer e morrer é homenageá-la com um sopro servil.”

William Shakespeare

Precisava comer algo. Não estava com fome, mas precisava comer alguma coisa. Aliás, fazia tempo que não tinha apetite, aquele seu apetite peculiar de quem sofria o bullying positivo dos amigos e parentes, sempre que havia qualquer evento que envolvesse comida. Sua fama lhe precedia: “Opa, chegou a terror dos rodízios!” era comentário comum entre seus amigos mais chegados, fosse para um almoço qualquer ou comemorações de aniversário. Raramente dispensava qualquer churrasco e sempre buscava aproveitar cada evento gastronômico que acontecia em sua cidade natal o máximo de vezes. Aliás, o Natal era uma de suas datas festivas preferidas, justamente pela fartura e comilança despretensiosa.

Sua falecida avó adorava contar episódios a cada reunião familiar e os seus feitos vorazes eram os preferidos. Mesmo não tendo recordações dos fatos (e sabendo que havia um bocado de exagero nos contos), divertia-se ouvindo a velha descrevendo como uma criança que mal sabia andar perambulava até a despensa atrás das latas de doce de leite. Sua mãe não gostava de ficar atrás e sempre tentava emendar outra história, como aquela sobre a engenhosidade da filha ao “construir” uma pilha de livros para tentar alcançar o tabuleiro de bolo que estava no topo do fogão. Seu pai costumava dizer que ela não tinha fome; fome era algo imanente a ela.

Não era uma vontade patológica, aquela compulsão por comer a toda hora ou não saber quando parar. Sua voracidade não chegava a incomodar ou causar prejuízos de qualquer natureza. Desde a infância, nunca se preocupara com dieta ou outros problemas de saúde oriundos de sobrepeso; nunca fora esbelta, mas tampouco fora robusta. Agora, suas coxas eram carnudas, com uma cintura fina e um abdômen saliente: tudo natural, sem aquelas massas rígidas e sobressalentes de músculos oriundas de escravidão em academias, práticas obsessivas de esportes e ingestão excessiva de suplementos vitamínicos e esteroides anabolizantes. Daí o apelido de Magali: sua massa corporal não parecia condizer nem um pouco com a maneira que comia.

Tinha acabado de sair do banho e deteve-se no espelho, enrolada na toalha. Passou a mão pelos cabelos molhados e negros. Era uma mulher de beleza exagerada, que refletia a flor da idade, mesmo já flertando com Balzac. Aproximou-se mais para examinar as olheiras que tanto lhe incomodavam nos últimos meses. O destaque que seus cílios naturalmente longos e delineados causavam esvaíam-se em crateras grises, fomentadas por cada noite mal dormida e cada acender do zippo. O jet lag ainda pesava sobre seus ombros, e provavelmente contribuía para piorar o desconforto com sua aparência. Não era lá vaidosa, mas gastava bem mais do que gostaria com maquiagem, produtos para rejuvenescimento da pele, cremes faciais, hidratantes e mais sei-lá-o-quê que prometesse benefícios puramente estéticos para um rosto que, de fato, não precisava de nada daquilo para ser admirado.

Na realidade, não eram as rugas quase imperceptíveis no canto dos olhos ou as bochechas arredondadas e protuberantes que lhe aborreciam. Tampouco as estrias suaves ao lado das coxas ou a barriguinha saliente. Muito menos a sua primeira tatuagem, já falhada e desbotada: uma flor de lótus feita em um estúdio barato quando tinha apenas dezesseis anos. Não, não eram as olheiras recentes. Sua autoestima havia sido minada nos últimos anos, pela infidelidade de seu ex-marido e pelo casamento fracassado.

Olhou para o relógio na pia, que acusou pouco menos de meia hora para o encerramento do jantar no Mariinsky. Esqueceu-se das olheiras, da maquiagem, e até da roupa íntima. Largou a toalha pendurada de qualquer jeito e vestiu-se. Por fim, calçou as botas forradas com lã e pôs o casaco mais pesado por cima do moletom. Respirou fundo e saiu da cabine a passos largos, em direção ao trabalho forçado gastronômico.

Não havia mais ninguém lá além dos garçons e do maître Ygor, que a recepcionou com loquacidade digna do famoso golem de Mary Shelley. “Bon appétit.” – ensaiou com um sorriso artificial, mas não de todo ruim; pelo contrário, era admirável o esforço que fazia para transmitir simpatia àqueles a quem deveria servir. Um belo exemplo de profissionalismo, que obliterava sua inaptidão e induzia dileção pelo trabalho árduo em seu imo.

Como já era de se esperar, a fome não chegou junto. Ao examinar o buffet, pensou em desistir, mas a visão das panquecas amanteigadas recheadas com salmão e creme azedo a fez mudar de ideia. Se fizesse jus à voracidade de outrora, a esta hora já estaria salivando e devoraria com facilidade três daquelas. Talvez até mais de quatro, pois sua última refeição fora o desjejum. Parou em frente à cuba das iguarias. Nada. Não havia vontade. Teria de se obrigar a comer alguma coisa, qualquer coisa. E, já que iria fazê-lo, haveria algo mais apropriado que uma blini? Acalentada por esta reflexão, contentou-se em colocar uma em seu prato até então vazio e foi sentar-se. Procurou uma das mesas com a melhor vista, pois, já que não satisfaria tanto o paladar com aquela obrigação toda, queria, ao menos, que outro dos seus sentidos saboreassem o momento.

Ainda estava claro, mas o tom alaranjado do céu já anunciava que o sol iria descansar em breve. Enquanto isso, cortando as áreas rurais às margens do Rio Neva, o cruzeiro Anna Pavlova singrava as águas espelhadas em direção ao Lago Ladoga. Decorando os campos, pastagens intercalavam-se com bosques de faias pretas, choupos, amieiros e bétulas. Agora, uma moradia de aparência humilde surgia na orla verde, como um espectador atraído pelo deslize da bailarina no leito do flúmen. Do outro lado, um pouco mais à frente, um pequeno rebanho ladeava o movimento suave das águas, olhando com curiosidade o pas de bourrée que rompia a monotonia da paisagem bucólica, implicando em um carnaval nas suas rotinas ruminantes. Esporadicamente, salgueiros pareciam atirar-se em seu curso, tentando tocar o cisne gigante que flutuava rumo ao horizonte. Anna Pavlova não se abalava; seguia sua dança, com a determinação característica da fascinante mulher russa que inspirou seu nome.

Comer ainda era um martírio, mesmo que amainado pelos devaneios árcades sugeridos pela vista. Terminou lentamente e decidiu ir até o deck aberto, para admirar os últimos resquícios de claridade sem a redoma que, ainda que límpida, impedia seus olhos de testemunhar aquele espetáculo de maneira crua e vívida. Nuvens esparsas, mas robustas, formavam feixes de raios solares que tremeluziam nas águas fúlvidas, em sincronia perfeita. O sol escarlate morria mais uma vez, para renascer amanhã como uma fênix estelar inanimada. Não havia cerimônia, nem baleias. Ainda assim, ela pronunciou com os lábios mudos Adiós, Sol!, despedindo-se do fenômeno tão subestimado pela maioria, mas tão amado pelos poetas.

Um calafrio percorreu seu corpo. Fora um dia relativamente quente, mas não para ela. Apertou os braços contra o peito, esfregando os ombros. A noite já espreitava, com a temperatura despencando conforme a claridade se esvanecia. Debruçada sobre a mureta, esperou o abraço da escuridão. Não houve abraço; a embarcação iluminou-se e Anna Pavlova brilhou mais uma vez em seu palco, agora com apenas as lânguidas luzes de São Petersburgo como espectadores, que foram engolidas paulatinamente pelo breu que a reta única e infinita do horizonte havia se tornado.

***

            Os olhos fechavam, o corpo fraquejava, e a lógica falhava. Mas a mente não entregava os pontos; acelerava, cada vez mais, até que a derrubasse da cama. Todo dia era a mesma coisa e não é porque estava viajando, em férias, que seria diferente. Aliás era até pior, pois não conseguia fazer o que chamava de Pestana Bacana, o ritual que sempre realizava antes de dormir. Ao sair do banho, sentava na cama para ler um livro que considerava um porre, como Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Vidas Secas, enquanto tomava uma xícara de chá de passiflora. Checava seu celular uma última vez antes de deitar (mas sem responder mensagens), colocava-o no modo silencioso e acertava o alarme para tocar Enter Sandman na hora que precisasse levantar – particularmente, dava risinhos tímidos sobre a ideia de ser acordada por Gaiman. Gastava as cinco vidas no Candy Crush e desligava por completo o dimer do abajur, cobrindo-se com um cobertor leve. O condicionador de ar protegia-a do calor frequente no Rio de Janeiro, e emitia aquele ruído contínuo de thrillers de ficção científica, que a isolava das avenidas barulhentas da Zona Sul. Então, colocava a mão por dentro da roupa íntima que estivesse usando – às vezes, um pijaminha de short e top; às vezes, uma lingerie mais elaborada – e começava a se tocar. Após uma gozada, deitava de lado em posição fetal, com as mãos embaixo da cabeça, de onde sentia o olor natural de seu interior – e não de sabonetes íntimos –, impregnado em seus dedos.

Com todos estes procedimentos meticulosamente ordenados, conseguia dormir pelo menos quatro horas por noite. Ali, no entanto, havia calefação. Não tinha abajur; a lâmpada da cabine era muito forte. No máximo conseguiria um suco de maracujá no bar, mas duvidava até que tivesse esta fruta. Não havia trazido livro algum e muito menos estava muito disposta a procurar e-books para tentar ler na minúscula tela do celular. O movimento levemente senoidal da embarcação não a enjoava, mas tampouco a embalava. Restava-lhe o Candy Crush e a masturbação. Mas sabia, ou pelo menos pensava que sabia, que isso não era o suficiente para que conseguisse dormir.

Estava há quase dez meses sem transar e, por isso, não abria mão do ato onanístico feminino diário. Mesmo levando a máxima de Allen ao pé da letra, “Não despreze a masturbação; é fazer sexo com a pessoa que você mais ama.”, era muito tempo para um jejum do tipo. Sua libido possuía frequência alta – uma vez por dia, no mínimo –, mas poderia ficar facilmente apenas no orgasmo solo, sem a necessidade da presença de um parceiro.

Um parceiro. No masculino e singular, sempre. Suas experiências sexuais aconteceram somente com homens. Houve, no entanto, um único beijo, um selinho rápido, com sua melhor amiga na época, Rebecca, em uma choppada. Poderia dizer-se que estava em uma fase de descobertas, mas não era bem isso; apenas queria impressionar os candidatos a peguete e pagar de descolada para as amigas. Não havia interesse, nem atração física. Porém, sabia reconhecer a beleza feminina. Não apenas o rosto de traços mais delicados, mas também as curvas sinuosas de uma mulher.

Rebecca era um exemplo disso. Invejava o bronzeado permanente que a pele acobreada absorvia com tanta facilidade. Tons azulados cintilavam à luz do sol, trazendo vida ao preto natural dos seus cabelos excepcionalmente longos e corredios. As pernas eram compridas, próprias para um caminhar menos lúbrico, mas Rebecca contornava isso com maestria. Não havia apenas reconhecimento ali; a beleza de Rebecca despertava a admiração, tanto de homens, quanto de mulheres.

E assim fora, durante anos de convivência quase inseparável. Inúmeras noites insones debruçadas sobre livros; outras tantas de bebedeira pela Lapa. Festival da Cachaça em Parati e fins de semana em Búzios no apartamento de veraneio dos pais de Rebecca. Risadas com as aventuras de um peixe-palhaço e soluços chorosos com as cartas de Holly Kennedy. Trocas de confissões íntimas e desentendimentos superados. Domingos de compras no Rio Sul e revezamento no consultório que mantinham no Edifício Central. Sim, foram, com efeito, inseparáveis.

Pensou em ir ao bar Cammille, mas não estava a fim de qualquer interação social. Nem dos lacônicos pedidos de doses de vodka, até porque sabia que, sendo uma mulher sozinha em um bar, aquelas não seriam as únicas interações às quais seria forçada. Preferiu, ou melhor, resignou-se ao frio solitário do deck inferior.

A parca luminosidade das poucas estrelas não era suficiente para que pudesse ver muito além. Anna Pavlova já não brilhava tanto como antes, com menos pontos iluminados além das luzes de navegação. Destas, algumas eram intermitentes, oscilando em harmonia silenciosa e circunspecta. Não via a lua, provavelmente acobertada pelos cúmulos vespertinos, como se vingassem pela implacabilidade dos últimos raios solares. Adiante havia apenas o breu.

Acendeu um cigarro com o isqueiro que não vacilou no vento. Algumas lufadas uivaram, cortando a quietude da noite e golpeando suas bochechas. A cada tragada, seus olhos semicerravam-se mais, exaltando as maçãs do rosto já coradas pelo ar gelado. O orvalho aumentava o desconforto álgido. Já eram quase três horas e precisava acordar cedo para o tour pela ilha de Valaam. Seria um dia cansativo, de caminhadas, cúpulas bulbadas, fotos coloridas e clima ensolarado, mas frio. Terminaria de fumar e voltaria à cabine, para uma nova tentativa. No fundo, sabia que só precisaria acordar cedo se, de fato, conseguisse dormir novamente, o que lhe parecia impossível até para o otimismo de Katya.

O sorriso, a alegria e a energia de Katya foram seus pontos de apoio durante o rápido divórcio consensual, que de amigável só teve o nome legal. Energia no sentido de disposição, porque não cria em coisas como cristais, magia cósmica e o blablablá de Augusto Cury. Não acreditava em qualquer deus, mas também rechaçava pseudociências como homeopatia e acupuntura. Katya, no entanto, acendia incensos pela área comum do apartamento que compartilhavam, com a justificativa de purrrrificación, em seu mix de línguas ibéricas com sotaque carregado no erre gutural. Quando acordava cedo, encontrava-a toda enrolada numa posição mirabolante de ioga que mais parecia uma ema atropelada. Não sabia como conseguia tempo para tudo; além dos estudos regulares de língua portuguesa, trabalhava como voluntária em uma ONG no Morro Dona Marta, fazia aulas de zouk e forró, e ainda achava tempo para ir à academia, cozinhar todos os dias, cuidar da metade das tarefas domésticas e socializar em festas, bares, luaus e noitadas com os amigos cariocas. Após a separação conjugal, quando alugara um quarto no flat de Katya, ela ainda achou tempo para se importar com sua depressão e tentar motivá-la a recomeçar a vida do zero.

Do zero. Olhou para baixo, o poço negro que era cortado silenciosamente pela proa de Anna Pavlova. As lembranças transformaram o Lago Ladoga no quinto fosso dantesco. Apesar da bolgia não borbulhar, acreditava que era capaz de infligir queimaduras no extremo oposto da escala Celsius. Conforme recordações trespassavam sua mente, parecia debruçar-se ainda mais sobre a mureta. Respirava ofegante, com o nariz de Rudolph fungando e falhando em acender. Franzia a testa para evitar derramar qualquer lágrima. Seu peito apertava em um vácuo doloroso, e a fadiga contra a qual lutava diariamente impelia-a a pôr fim em tudo. Fechou seus olhos por alguns instantes. Inspirou fundo e, quando os abriu novamente, uma neblina espessa a impedia de ver o tormento dos corruptos.

BAM!

Despertou da lamentação e olhou para trás. A bailarina não brilhava mais, ofuscada pela névoa que a envolvera quase instantaneamente. O barulho que ouvira parecia de algo se chocando contra a embarcação. BAM! BAM! O convés trepidou. A névoa, em direção à popa, coloriu-se em amarelo e agitava-se em redemoinhos. Ouviu gritos abafados, provavelmente em russo, e encostou-se na mureta, apertando o corrimão que a mantinha a bordo.

BAM!

Desta vez a colisão fora mais violenta e Anna Pavlova desequilibrou-se, adernando. O alarme de incêndio ecoou pelos corredores internos, mas logo foi abafado pela ensurdecedora sirene de emergência. Precisava chegar ao Ponto de Encontro descrito no Guia de Segurança que leu na cabine assim que se alojou, e arrependeu-se de ter sido tão leviana com o muster drill. Em pleno século XXI, e em sua ignorância, incêndios a bordo e naufrágios pareciam tão distantes da realidade que o RMS Titanic não passava de uma lenda urbana oscarizável. Não podia acreditar naquilo; parecia anestesiada. Só conseguia agarrar-se mais ao corrimão. Esqueceu-se do Ponto de encontro, de coletes salva-vidas, de botes de emergência, etc. O cisne aprumou-se sobre a água, sacudindo-se como uma boia balouçante de ampla magnitude.

BAM! Os pés desprenderam-se momentaneamente do deck e foi arremessada contra os mainéis do parapeito a estibordo. Ajeitou-se no chão, de joelhos e, atônita, abraçou o corrimão. A embarcação parecia ter atingido o ângulo crítico e não havia mais balé. O tombamento lateral era lento, mas inevitável. Um bote de emergência que se destacava da lateral do navio, suspenso por postes rígidos de metal tingidos de branco, sacudiu descontroladamente e despencou como uma maçã madura despede-se de seu sustentáculo no outono. Ouviu o espatife na água e soluçou com terror estampado, num desespero que não correspondia à nostalgia da retrospectiva de uma vida inteira no momento derradeiro. Encolheu-se e, subitamente, aqueles segundos finais em que encarava a iminência da foice pareceram ter entrado em slow motion.

Não era justo. Não porque acreditava em justiça divina ou aristotélica, mas porque precisava ser justa consigo mesma. Já estivera no fundo do poço, com aqueles pensamentos recorrentes de que nada dará certo na sua vida e de que o suicídio seria apenas um atalho para pular todo aquele sofrimento pelo qual era obrigada a passar. Em especial nos últimos meses, sua vida tornara-se um fardo pesado demais e a viagem era uma tentativa meio que desesperada para aliviar tal peso. Muitas vezes perdera-se no conflito entre a visão pessimista de seu futuro e a determinação com a qual regera seu passado, embate este que acabava drenando qualquer coragem para a violação do princípio natural mais primitivo do homem: o instinto de sobrevivência. Não, não era justo que tivesse guerreado tanto em si e contra si mesma, para se juntar pacificamente a uma obra piromaníaca de caráter tão duvidoso que nem Nero aprovaria. Precisava sair dali, fugir. Ergueu-se.

BUM! Um estrondo fê-la proteger a cabeça com mãos impulsivamente. Pedaços do navio lançaram-se no céu enevoado como fogos de artifício grosseiros e pesados. Podia ouvir o pânico que vinha do interior da embarcação. Não iria perder tempo procurando colete salva-vidas nem rotas de fuga; nenhum destes iria protegê-la das chamas. Subiu no parapeito da mureta e decidiu pular.

Decidiu, mas hesitou. Não estava em um daqueles cruzeiros transatlânticos de dimensões homéricas. No entanto, um salto do deck do segundo andar deveria ter, o quê, dez, doze metros de altura? Talvez menos, pois o cisne estava adernado. Mas era um mergulho nas trevas de uma névoa que parecia esconder o próprio Malebolgia. Mesmo sem pedras nos bolsos ou um bilhete agradecido e conturbado de despedida, a ideia lhe parecia suicida. As pernas bambearam, fazendo com que o equilíbrio ficasse por um fio.

BAM!

O dilema fora interrompido pela pancada impiedosa que a arremessou contra o lago. Chocou-se contra o espelho gelado, mas não havia entidade alguma à sua espera; fora recebida apenas pelo frio que inundou sua roupa e cabelos. Afundou no mar doce em cambalhotas, enquanto tentava se orientar pelo borrão de claridade que emanava do calor a bordo. Sentia uma queimação na pele exposta e, por alguns instantes, entendeu como Ciampolo se sentia. Porém, desta vez, queria ser fisgada, voltar à tona, para borrifar aquele hálito morno de fumaça na atmosfera. Não queria ludibriar besta alguma, mas confrontaria seus demônios a nado, para bem longe dali. Arrancou com dificuldade as botas e cavou sua ascensão rumo à superfície.

O cisne flamejante estava estático, ardendo. A bailarina cintilava em dor, com as labaredas retorcendo-se em regozijo ao consumi-la. A insônia talvez tivesse salvado sua vida, dada a subitaneidade do que quer que tivesse acontecido. Virou o rosto, ao imaginar quantas vidas ali teriam sido engolidas pelo fogo, sem ter tido sequer a chance que teve. Mas talvez a vigília involuntária não tivesse lhe poupado de fato, mas apenas ofertado-a uma maneira diferente de perecer. Ofegou de temor, e pôs-se a nadar freneticamente, deixando para trás o cenário apocalíptico. Sabia que não tinha muito tempo; a baixa temperatura inevitavelmente travaria seus músculos em cãibras que a deixariam inerte: no fundo ou boiando pela eternidade.

As braçadas eram difíceis, devido ao peso das roupas de inverno que usava. Seus dentes batiam, com os lábios arroxeados pressionados entre si, para evitar o fluxo de água adentro. Nadou ininterruptamente o máximo que seus pulmões castigados por uma década de fumo conseguiram. Parou a uma distância a salvo com folga daquela tragédia grega que o balé se tornara. Observou então Anna Pavlova executar o seu último compasso, bem suave, levando consigo quase uma centena de vidas, tal qual as sereias de outrora aprisionavam marujos e selavam seus destinos no fundo das águas. Indiretamente, sua sorte também seria reivindicada, caso não acertasse na loteria de encontrar apoio em terra firme de qualquer das mais de seiscentas ilhas do lago, ou de suas margens, estas mais longínquas.

Desfez-se do casaco mais pesado e voltou a nadar em direção ao nada. Estava perdida no espaço e no tempo, e não tinha noção do quanto havia percorrido quando a primeira pontada de fadiga rasgou os músculos lumbricais de um dos pés. A dor era insuportável e não conseguia mexer uma das pernas. “O calor a perdoara, mas o frio viera acertar as contas.” – lamentou em agonia. Ensaiou um grito de socorro, abafado por bolhas e jatos d’água que lhe invadiam a garganta. Esticou e abanou os braços, tentando manter-se emersa, até que tocou o solo, ainda com as mãos no ar seco. Pegou impulso no fundo e voltou à tona, empurrando seu corpo para frente. Parecia que, por fim, enganava seus demônios, quicando no piche congelante.

Roçando-se na vegetação rasteira que emergia, arrastou-se para fora d’água, mesclando o orvalho da noite com suas roupas ensopadas. Não tinha mais forças para nada; desabou. Até a resposta ao ambiente parecia expirar; o tremor descontrolado de frio se continha num aperto dos braços contra os seios. Seus dentes travaram de exaustão. Encolheu-se, fechou os olhos e apagou.

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