Puta Merda

Puta merda. Sempre adorei a expressão “Puta merda”. Por três motivos principais; primeiro porque adoro surpresas. Segundo, porque puta é quem eu sou, não apenas o que faço para sobreviver. Por último, porque minha vida é uma merda.

As pernas eram parte fundamental da vitrine, então precisava deixá-las à mostra. Couro podia até ser quente, mas naquele frio não evitava que minha bunda congelasse. A porra do vento que entrava por baixo batia de frente com a minha buceta, eriçando os pelos pubianos, já que não os aparava toda santa noite. Pelo menos podia cobrir a barriga e os peitos com a jaqueta, aquecendo-me até o próximo carro encostar e baixar o vidro do carona.

Ah, arrependi-me das vezes que praguejara contra Reinaldo. Um dos meus clientes mais assíduos, o velho broxa era uma solução bem-vinda para escapar daquela friaca. Lembrei-me de quando insistiu para que fosse a sua cobertura. Era hábil com as palavras, mas nada sedutor. Aquela porrinha carrancuda, de pouco mais de metro e meio, tinha pequenos olhos, com as bochechas sobressaindo na cara redonda. Ele, talvez o único que já fizera isso, sempre parava e descia do carro para tratar de negócios comigo. Apelidei-o de Rei da Roça, pois não descartava o flerte, mesmo após o décimo encontro. De gestos ensaiados, tocava meu ombro com unhas compridas e de esmalte incolor, com preocupação em demonstrar respeito, até mesmo um certo carinho, por trás de toda aquela aparência xucra; era um nobre dos tempos modernos. Os cabelos encaracolados, oleosos e pintados camuflavam a idade, mas nem tanto. O arco dourado e grosso que espremia o anelar gordo me deprimia, pois sabia que uma pobre alma estava condenada a deitar-se toda noite com aquela criatura asquerosa. Puta merda! – era o que dizia toda vez que via o monza cinza reduzir para o acostamento. Mas pelo menos não morria de frio.

Enquanto isso, ficava ali mesmo parada, sentada no meio-fio da Avenida Marcus Cherem. Sem aquele bololô de gente que o dia traz, o lanche da madrugada era um cigarro após o outro. Se fosse uma segunda-feira, não estaria mofando ali. A esta hora, já estaria no quinto cliente, com o colo arranhado em carne viva de tanto sentar. Se tivesse sorte, teria, até o raiar do dia, uma estocada decente. Uma daquelas que faria sentir-me menstruada. Aquela foda que latejasse o útero, e deixasse minhas coxas internas escorrendo a mistura rosa de fluidos meu e do benfeitor. Porque era isso que esperava, no mínimo, a cada noite de trabalho. Não aquele frio do caralho.

Uma Brasília vermelha-tímida dobrou a esquina do quarteirão. Levantei e ajeitei a saia. Devagar, ele encostou e abaixou o vidro. Debrucei e larguei o slogan pessoal:

– Olá, gato, a fim de foder forte e gostoso? – junto com piscadela e o peito à mostra, quase nunca perdia um novo cliente.

Pelo que pude ver, era um garoto de no máximo vinte anos. Devia estar cursando a faculdade e resolveu desestressar um pouco antes das provas finais, saindo com o carro que papai lhe dera há pouco menos de dois anos.

– Qua-quanto é? Ou custa? – voz baixa, como se não quisesse que ninguém ouvisse ou tivesse vergonha do que fazia ali.

– Para você, amor, faço por cinquentinha a hora.

– Vo-você faz… hum… anal?

Ora, ora, quem diria? Estava crente que minhas beiças fumariam um charuto (ou um cigarrinho, porque descobri mais tarde que o garoto era todo tímido, se é que você me entende), mas ele queria mesmo era apagá-lo no meu olho. Do cu. Olhei-o de cima à baixo, somente para disfarçar. Fiquei imaginando se aquele garotinho conseguiria abrir minha bunda e atochar com força, tirando sangue do meu rabo e fazendo-o correr quentinho pela beirada, dois dedos à frente (ou abaixo, dependendo da posição). Só fiquei na imaginação mesmo.

– Mais vintão e eu boto você todo pra dentro desta bunda gostosa – e virei de costas, levantando a saia.

Funcionou. O Motel Scorpion ficava um pouco mais à frente e nem deu muito tempo de passar a marcha para relaxá-lo. Conversa vai e conversa vem, ele me revelou que era virgem. Foi pá-pum. Mal tirei a roupa, encostei no biro-biro dele e puf – jorrou leite, com violência jovial. Bom para mim, que economizaria tempo ao voltar para aquele frio do inferno. Bom, não era o mesmo frio, porque praquele inferno, eu não voltava. Nem fodendo.

Em pouco tempo, estava lá de volta: vento rasgando a buça e calçada gelando o cu. Depois de mais um ou dois, não me lembro, minha buceta estava cheia de porra, do jeito que eu gosto. Eu sou uma “puta imunda”, no sentido literal da expressão, porque não tomava banho e acumulava golfada. Sim, eu só fazia no pelo; era o jeito que eu curtia. Sei lá, acho que eu absorvia todo aquele caldo branco, me alimentava daquilo, de sexo. E era assim que mantinha clientes naquela noite vazia e fria, e que me divertia quando algum desavisado insistia em chupar a xoxota lambuzada e usada, cuspindo e xingando ao sentir o gosto de água sanitária.

Desta vez, nem praguejei contra ele, e veio. Eu gosto mesmo de meter, sentar, rebolar, dar. Mas, puta merda, com aquele catiço era dose. Não havia nada ardido ainda quando chegou; estava pronta para ser usada. “Lavô, tá novo”, mas não tinha nada limpo ali. O monza encostou: o Rei veio para mais um episódio de tantos outros de traições à sua senhora. Puta merda. Pelo menos, era o último.

A monogamia é aquele joguinho cujas regras todos já sabem. Sempre que o outro vira para o lado, dão uma roubadinha. Por isso, ninguém nunca enuncia as regras antes do início do jogo: fica mais fácil de jurar inocência depois, ao alegar que “não sabia”. Preciso assumir que amo demais estas regrinhas; ora, aqui sou puta e vivo graças a elas.

O que seria de mim sem a Srta. Moral? A porra do planeta viraria palco para uma fodelança maior que a cena famosa em Perfume, que só sairia daqui a alguns anos. Ninguém iria pagar por uma chupada ou pela obra de arte que era a minha rebolada numa piroca. Bem, talvez realmente não houvesse mais infidelidade, mas haveria traição. Ah, sim. Porque o homem se diverte com a mentira, mais até do que metendo num cu apertado. Por isso, me pagam para fechar os olhos para a Srta. Moral, enquanto eles mesmos, os putos, cagam na cabeça dela, com eufemismos como “caso”, “relação extraconjugal”, e o diabo. Puta merda.

Tudo bem que não havia relacionamento comigo, e isso o dinheiro garantia no final. Com a amante era diferente: havia relação, ainda que fosse considerada puta, mas comigo, com uma “puta de verdade”, não havia. Pois bem, permanecia ali, no limbo entre a traição e uma relação extraconjugal, sem moral alguma para julgar alguém. Ou pelo menos, era o que achavam.

Vamos pular a parte do flerte porque eu era paga para ouvir aquilo. Vocês não. O aquecedor do carro estava ligado no máximo, e Reinaldo suava em bicas, com as papadas apertadas na gola da camisa social estufada. Meti a mão no meio das pernas dele, e ele se ajeitou. Fiquei curiosa para saber qual era a justificativa que usava para trair a esposa. Seria falta de tesão nela? Seria falta de tesão dela? Sei lá. Já ouvi tantas desculpas que dá até vontade de rir, de tão forçadas que são. Vai ver a Rainha da Roça não curtia lamber o cu fedido e peludo dele. Não importa; qualquer que fosse o motivo, ele estava ali, prestes a me foder com todos os seus três minutos de fôlego e sorriso amarelo.

– Você sabe que hoje é o nosso décimo terceiro encontro?

O velho arregalou os olhos e franziu a testa. Engasgou e riu, sem saber o que dizer.

– Eita, preula. Verdade?

– Sim, eu contei, amor. E hoje, você vai sentir isso aqui diferente. – levantei a saia, apertando com os dedos a racha.

Estava escorrendo pelas coxas, deixando uma poça no banco do carona. Porque era a última vez dele, e eu sempre acabava gozando horrores nestes casos. Mais que com qualquer destas bimbadinhas mundanas.

– Encosta o carro. Vamos comemorar aqui mesmo; quero que me foda agora, aqui mesmo. – molhei as camadas untadas dos seus dedos na buceta e lambi-os. As unhas eram bem cuidadas, mas para disfarçar as crostas debaixo, mas não camuflavam alguns panarícios.

O Rei titubeou e diminuiu. Quando o monza parou, enfiei-me de pernas abertas entre sua barriga sobressalente e o volante, roçando pentelhos em botões que quase pipocaram. Puta que é puta vende ilusão. A ilusão de que o bagulhinho é desejado, de que o trocinho dá prazer, de que o canalha é poderoso. Mas algumas putas achavam que só vendiam sexo, que só vendiam o corpo. “Putas não beijam” – diziam elas.

Segurei as bochechas ásperas e rubras, tascando o beijo, o último. Senti uma cutucada de brim no grelo: o biro-biro acordara dos mortos. Veio prestar-lhe a última homenagem, pensei. Então mordi sua língua e a arranquei com os dentes, enquanto rebolava naquela piroquinha meia-bomba. O desgraçado se debateu e tampei sua boca. E não é que o filho da puta se excitou com isso? Encaixei-o dentro de mim, com o pau pulsando mais que as luzes foscas do Scorpion. Chifres dilataram minha testa; era hora de revelar minha verdadeira aparência, já que me possuíra tantas vezes, sem ter ideia de quem sou. Ou melhor, do que eu sou. Asas irromperam pelas laterais do Chevrolet, olhos choraram betume, e dentes sulcaram as gengivas. Reinaldo revirou os olhos, enquanto se afogava engolindo o próprio sangue. Tinha sentido pena dele, mas tinha fome e aquele cotoco latejava dentro de mim. Como a todos os outros, dei-lhe as doze chances de se arrepender, voltar atrás e fingir que nunca tinha me conhecido. Ele voltou, e voltou, esquecendo a Srta. Moral, e trocando a Rainha por mim, esta puta tão bonita que não acreditavam que era barata. Tão gostosa que não acreditavam que eu fosse tão puta. Tão puta que não acreditariam que eu era um demônio, nem se eu confessasse. Para o Rei, cada encostada do monza cinza era seu Éden, e um puta merda para mim.

Como já disse antes, vão inventar todo tipo de justificativas para a mentira. Ah, sim, meu charme é sobrenatural, místico, blábláblá. Porque nem Ele, em toda a onipotência divina, era capaz de recusar a buceta arrebatadora da Criadora do Tesão, Rainha das Súcubos, a Primeira das Putas. Com uma simples batidinha de asa, minha borboleta abraçaria a pemba toda-poderosa, em magnetismo tão forte quanto o que faz o Mjolnir procurar a bunda do Thor. Confiava no poder da própria buceta, que há milênios garantia sua estadia no mundo dos homens. A fé pode mover montanhas, mas uma buceta movia cordilheiras, picos e picas. Meu cu, então, movia mundos inteiros.

Mas não havia desculpas. Violei o pomo de adão com os dentes, enquanto perfurava a costela com as garras, numa vingança bíblica, ainda que fictícia. Pela décima terceira vez, arranquei o jato de porra, mas, agora, a alma fora junto. O Rei fechou os olhos e aquietou-se, mas o carro ainda se sacudia sobre as rodas inertes. Ninguém sentiria minha falta lá embaixo, pelo menos por mais uns treze anos. “Melhor reinar sobre a merda, do que servir no Céu. Ou no Inferno.” Banhei-me e saboreei a carne do homúnculo, porque sabia que teria de voltar ao relento e, desta vez, não haveria Reinaldo para salvar-me da friaca.

Puta merda.

***

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Perversão – Muito Além Da Cama

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Pessoal, ficou pronto o livro Perversão – Muito Além Da Cama, escrito pela minha amiga Carolina Gaio, para o qual colaborei, sob a alcunha de Medieval Dragon, com uma entrevista sobre a intersecção entre BDSM e Poliamor, onde abordamos diversos outros temas, desde preconceitos a situações inusitadas.

Leia um pequeno trecho abaixo:

“Na sociedade atual, o sexo ou qualquer assunto relacionado ao prazer sexu­al é ainda um tabu, cercado de má interpretação e que pode trazer à tona vários tipos de discrimi­nação e de outras sanções sociais (desde bullying até agressão física).

A analogia entre BDSM e violência, a conotação pejorativa do sexo casual, a generalização do sado­masoquismo como prática homossexual e a confusão do poliamorismo com pro­miscuidade são exemplos claros da falta de conheci­mento e do preconceito que permeiam o meio baunilha e que podem ter um efeito devastador no estilo de vida de um indivíduo.”

A quem interessar, Perversão – Muito Além Da Cama está à venda aqui neste link.

A Máscara de Nós

Tenta escrever

Mas escrever não pode

Pois era uma casa

Muito engraçada

Não sentia, não tinha nada.

 

Homem de palha,

Homem de lata

Não escreve, nem pensa nada

E o mundo que é chato

Porque não ri de piada.

 

Terra de palmeiras, onde canta o sabiá

Vazio aqui, solidão acolá

Não sabe de nada,

Quer fazer graça

Sem saber onde está.

 

Carne, raça e dinheiro

Berço envolto em magia

Homem de palha,

Homem de lata

Em herança que privilegia.

 

Artista que pinta

Muro de cinza

Não sabe o que é tinta

Nem o que rima

Com o verso de cima.

 

Ele é José, é cidadão

Homem de palha

Homem de lata

Mas só é leão

Contra fantasma.

 

É pau, é pedra,

Para toda obra.

É cidadão de bem,

Bendito cristão,

Torce para a seleção.

 

Homem de palha,

Homem de lata

Piada com desgraça

Uma após outra

Mulher de mordaça.

 

Tenta escrever,

Não escreve nada

Ninguém o nota

Em sua anedota

Sozinho na sala.

 

Homem de palha,

Homem de lata

Esquecido no tempo

Piada que falha

Mundo que atrapalha.

 

É pai que trai,

Com piada afiada,

Não paga pensão,

Mas quer atenção

Da mulher de Prada.

 

Mundo chato

Que não ri de nada,

Nem de viado,

Nem de teta de vaca,

Só porque é babaca.

Ode Ao Cu

Por anos a fio, lá no fundo
Acolhe com  suor.
Não há outro lugar no mundo,
O cu é o melhor!

Entra e sai, atrito forte,
Deus rugoso do pecado capital!
Todos querem a sorte
Da meteção pelo canal, retal.

Emaranhado que sustenta
Badalhoca pendurada em ônus.
Ignorância, porque ele ostenta
Pregas corrugadas do ânus!

Passam papel no furo imundo
Limpo ou sujo, tiram o pior,
Porque não há outro no mundo:
O cu é o melhor!

Seja quieto ou matraca,
Apertado ou felpudo.
Se for liberar a cloaca,
Deixa qualquer um galudo!

Olhota pronta!
Rodela que lateja!
Anel que se monta!
Beijo grego que deseja…

Casa fechada ou prolapso rotundo,
Bunda larga, ou furico menor.
Não há melhor lugar no mundo,
O cu é o melhor!

Na esbórnia, faz-se fila.
Todos querem, em furor,
Este túnel onde se desfila,
Porque o cu não tem pudor!

Perfume de dor,
Prega que tenta,
Prazer sem pudor;
O cu sempre aguenta!

Preto ou branco: vem todo mundo!
Devasso ou sacerdote-mor.
Não há lugar melhor no mundo:
O cu é o melhor!

Orifício da peida, de qualquer cor,
Flor que cheira; que fedor!
Seja homem, mulher; ou os dois
O cu não é deixado pra depois.

Cu doente, cu que é quente.
Fique à vontade, cu não é horror.
Não há cu que arrebente,
Nem na febre, nem no calor!

Só a ‘becinha ou vai-e-vem profundo,
É de ferro, ou elástico maior.
Não há outro lugar no mundo,
O cu é o melhor!

Cu é belo, cu é vida!
Cu é ideia, força que habita!
Sempre merece uma metida,
Pode assumir, não faça fita!

Porque bem lá no fundo,
Ele sempre acolhe, com suor.
Não há melhor lugar no mundo,
O cu é o melhor!

Piroca brocha, buceta sem poça.
O cu não! O cu sempre coça!
Para o dedo ou para a língua,
O cu nunca míngua!

Hétero ou homo,
O cu é amigo e como!
Ninguém quer passar fome;
Cussexual é o nome!

Ruga que pisca, cego e caolho,
O cu não tem ferrolho.
Cu é belo, é vida, é o melhor!
O cu é o melhor! O cu é o melhor!

Com Ou Sem R

Abanam-se, livres, em alvoroço
Abeira beleza em bico sobreposto
Foge às pressas o pudor do moço
A paz perturba-se, e tapam o rosto!

Sedutora, clama ao seu colo
Do arrogante ao valentão
Rechaça todo protocolo
Na porrada ou discussão!

Lá vem ela,
Em ritmos edênicos
Balanço que desvela
Mamilos polêmicos!

Bafafá, treta, contenda
Briga, litígio ou atrito
Não há quem se entenda
Caos e ofensas em grito!

Treta, deusa boa de se ver!
Ou tetas que regam lembranças
Com ou sem R, se precisar escolher
Lambuzo-me com ambas.

O Pai Te Ama

O nome é Rafaela. “Nome forte para uma menina forte”, dizia ele. Sabia, no entanto, que era apenas uma variação de Rafael, o primogênito, e, no futuro, descobriria que era apenas uma sombra dele. Ou que, pelo menos, fora criada para isso.

Não entendia o porquê de tanta proteção, já que era uma “menina forte”. Não podia beber, para a própria proteção. Nem fumar, para preservar a saúde. Com Rafael fora diferente. Não porque as coisas lhe fossem permitidas, mas porque pareciam confiar nele. Não podia beber, nem fumar. Mas podia sair, desde que meia-noite estivesse em casa. Ela não. “Não se pode confiar nos homens hoje em dia”, dizia ele. Mas Rafael era homem e papai confiava em Rafael.

Nem sequer aos palavrões da TV podia assistir, mas, pelo menos, escreveu-os até cansar em paredes e portas de banheiro. Nudez também era censurada. Bem como shorts, minissaias ou qualquer outra que desnudasse o cós ou revelasse as coxas. Sexo então nem pensar. Nem no pelo, nem com camisinha. Nem o papai-e-mamãe-amorzinho, nem aquela foda bestial que deixa o cu assobiando de tanto que faz bico. Nem Rafael podia, na verdade (foder, claro, porque se o cu a assobiar fosse o dele, vixe…). Aliás, sexo era tabu em casa, menos no noticiário.

Porque, nos noticiários, ela merecia ser violada, seja por causa da roupa, seja porque estava sozinha, seja porque… seja porque era mulher. Afinal, a culpa nunca era do homem. Vejam bem, eu disse “homem”. Porque quando não tinha jeito de culpar a mulher, o estuprador era sempre categorizado como “monstro”. Tipo, sei lá, uma nova raça de ser humano. Estuprador era qualquer coisa, menos homem. Mesmo quando este estuprador, este homem, era o namorado, marido, tio, irmão, pai, avô; era um monstro. Todo e qualquer Dr. Jekyll sabe bem como to hide (perdoem o trocadilho) esconder o Sr. Hyde. Sabemos, no entanto, que é impossível que, uma vez liberados, os civilizados Jekyll não se viciem na liberdade dos Hyde. A merda é que a sociedade escolhe fechar os olhos para os Jekyll dos Hyde, e não o contrário. Porque eles sabem, muito bem, que os Hyde são ou já foram como eles. E também sabem que os doutores são fracos demais para conter a tentação do poder dos Hyde.

Cresceram, e me tornei gente, humana. Queria foder, e não podia. Nem com quem quisesse. Ainda não era madura para isso. Os homens, na mesma idade, eram, e Rafael já podia foder meio mundo, até quem não quisesse. Afinal “quem mandou beber daquele jeito, né?”. Podia meter até naquelas que ainda não eram maduras o suficiente, porque os pais não deram educação, as deixaram soltas pelo mundo ou não souberam protegê-las. Mas isso não aconteceria comigo. Eu, Rafaela, princesinha-do-papai.

Rafaela significava “curada por Deus”, mas devia faltar um erre ali. Porque, se fosse pelo deus em que o pai acreditava, ela só era fodida por Ele. Amém. Papai era um defensor Dele e da Moral e dos Bons Costumes. Em nome desta santíssima trindade, valia tudo: discussões, humilhações, privações e violência. Guerras foram travadas, mas sempre com deuses alheios, ou ímpios que se apropriavam de seu Santo Nome. Nunca fora o Deus dele. Nunca foram os verdadeiros fiéis Dele; nunca fora ele, seu pai. Era tudo vontade de Deus, mas ele, papai, era quem sabia o melhor para a vida dos outros. Queria o ensino religioso nas escolas, mas só da religião dele. Tal como outros antes dele, e como muitos outros virão, papai usava o nome de um deus. Sob falsa modéstia escondia-se atrás dele, para fingir respeitar o próximo e cuspir preconceitos sem qualquer pudor. Queria tanto que outros vivessem como ele, que esquecia que havia “outros”. Preocupava-se tanto com a vida alheia, que esquecia da própria, e da família. Enquanto eu, Rafaela, a princesinha-do-papai, chorava no quarto, ele esbravejava na sala contra o beijo entre dois homens no horário nobre.

Papai era um homem de bem, um homem de e para a família. Um “cidadão de bem”, como ele dizia. Saía cedo para o trabalho e voltava tarde, já à noite, mas sempre encontrava tempo para defender o núcleo familiar. E como ele fazia isso, senhoras e senhores? Em rodinhas de conversas no churrasco do fim de semana, ou até mesmo nos intervalos do trabalho, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ah, e como conhecia este Verbo! – era capaz de tudo para se fazer ouvido e não contestado. Papai era como qualquer religioso: abominava a mentira, desde que ela não servisse ao seu próprio Deus. Isso valia para tudo em que acreditava; papai era seu próprio Deus. Vociferava analogias enfeitadas, que surpreendia os colegas menos cultos. Acessava a internet para ler títulos de fake news e propagá-las, desde que carregassem conteúdo que o ratificavam. Debatia com propriedade, mas sem qualquer conhecimento científico, ou descartando-as ad hominemente. Gesticulava com eloquência contra os questionamentos morais – “Para onde vai este mundo com o rumo que a sociedade está tomando?” era questão sempre presente, ainda que retórica –, e regozijava-se em concordâncias. Esquivava-se com a famosa citação de Descartes “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”, mas sem saber que o filósofo francês nunca escreveu isso (e que uma mulher foi quem o fez). Papai beirava a verborragia patológica, com pitadas de esquizofrenia teológica.

Tempos bons, aqueles. Hoje em dia, tem muito mimimi”, dizia ele. Porque papai era do tempo que violência era só agressão física. Do tempo em que repressão era só a do governo militar, e não aquela que instaurava dentro do próprio lar, em nome da Moral e dos Bons Costumes. E de Deus. Sua única arma era a palavra, e, agora, queriam lhe tirar até isso. Desarmar um homem de bem, um cidadão de bem. Hosana nas alturas!

Todos gostavam dele. Pelo menos no trabalho, onde cumprimentava-os sem distinção de credo, cor ou classe social, e flertava com as faxineiras e copeiras, sob o disfarce de gentileza. Entre um discurso inflamado e outro, gabava-se de quando visitava puteiros pelo Brasil, e comia uma, duas, três putas numa noite. Contava histórias sobre suas aventuras extraconjugais, com orgulho e extravagância, arrancando gargalhadas com trocadilhos e onomatopeias criativas. Aqui, a Moral e os Bons Costumes davam lugar a uma epopeia de putarias, mas abundante da decência insossa do papai-e-mamãe-de-dois-minutos-de-duração. Porque Deus abençoava sua fama pudicícia de fodedor, mas recriminaria qualquer perversão sexual (leia-se: qualquer coisa muito além do cachorrinho, ou qualquer coisa que – insira aqui seu nome – considere bizarro). Porque papai jamais imaginou que mamãe, para ele um exemplo inquebrantável de pureza e castidade, fosse capaz de chupar o pau de cada professor da escola de seus filhos (e que o fizesse sem deixar qualquer vestígio – mamãe era foda). Porque papai recriminava os jovens precoces que “se pegavam” em público, e as jovens que pintavam os cabelos de cores “esdrúxulas”. Porque Deus desgraçava tatuagens e nudez, mas cagava para a quebra do sagrado matrimônio, para as traições e para as punhetas batidas, com pilhas de DVDs pornôs aos quais assistia escondido da mulher – e de Deus também, pelo jeito (à sua maneira, então, papai também era foda – só que não).

Aos domingos, papai nos levava à missa. Rafael até curtia, e não haveria porquê de não curtir. Tudo lhe era proibido, mas relevado. A mim, tudo era proibido, e reiterado. E fiscalizado com o dobro de esforço, exigência, desconfiança e atenção. “Nome forte para uma menina forte”, dizia ele, mas não entendia porque tanta dedicação de um lado e descaso do outro. Não entendia o porquê de tanta proteção, já que era uma “menina forte”. Não entendi até crescer, e descobrir que Deus era apenas mais um. Nem pior, nem melhor. Apenas mais um. Um. Não uma; não havia deusa alguma. Se houvesse, havia um deus, no masculino. Porque Deus era homem. E como sei disso? Porque ele me fodeu a vida inteira e nunca precisou de permissão para isso. Fodia aos pouquinhos, sem que eu sentisse, e nunca me deu chance de gozar. Sim, Deus só pode ser homem. Eu, Rafaela, não queria ser currada, nem curada por Deus, nem por ninguém. Mas eu, Rafaela, era a “menina forte” que aguentava sua onifodência. Só que não era forte porra nenhuma: era apenas mulher. Isso por si só já significava ser forte, caso eu quisesse sobreviver àquele mundo hostil, de ímpios e de cidadãos de bem.

Sobrevivi, mas não vivi, como outras tantas. Obrigado, mamãe, por tudo. Quanto a você, papai, espero que leia o que escrevi nos azulejos do banheiro, com o sangue dos próprios pulsos. Sim, é para você. Caso não consiga ler:

Vá se foder!

***

Aurora

O sol despontava no céu que os acolhia, e a savana africana hospedava aquela tribo de homens. Homens que eram parte de um todo; natureza que ainda não fora esquartejada. Apesar da divergência entre presas e predadores, viviam sob a distópica lei do mais forte. Ou, como foi retificado no futuro, do mais apto. Conviviam, mas lutavam contra a meritocracia genética para sobreviver. Dependiam um do outro, em harmonia que seria destroçada pela arrogância do homo sapiens.

Ali, no entanto, o respeito ainda imperava. Admiravam a escassa flora com simplicidade, enxergando beleza até nas folhas amareladas e secas que falhavam na árdua tarefa de sobreviver. A terra, árida ou fértil, os abrigava contra a noite e a solidão, enquanto filetes de riachos proviam energia necessária para que buscassem novas fontes energéticas. A imensidão celeste os protegia contra a fúria dos deuses antigos e se comunicava com um suave toque no distante. Infinitude para os olhos e tranquilidade para os pés. Eram livres, e unidos em gratidão incontestável por qualquer pouco que a natureza lhes oferecia. Gratidão expressada em cânticos, danças, e uma incipiente fé nos elementos visíveis, e às vezes insignificantes, mas tão relevantes à sobrevivência.

Foi quando o vento uivou seco e areia se acumulou nos poros que os ânimos se acirraram. O sol desgastava a pele, e a garganta pigarreava. Migravam com mais frequência, como patos desnorteados, lançados à selvageria. Abandonados pelos deuses, ou castigados pela natureza, a única abundância era a de bocas a serem alimentadas.

A pele esticava sobre as costelas quando avistaram impalas saciando-se em ribeira próxima. Lanças e arcos foram preparados; Chaka era o líder, e qualquer abatido seria uma dádiva. Para aquele dia, para a tribo inteira; não importava: a fome anuviava o discernimento.

Aproximaram-se, passo a passo, de tufos em tufos. Sem saber, foram camuflados pela sede que abatia o bando. Qualquer hesitação acabaria com as esperanças da tribo. Caso fossem descobertos, não seriam capazes de perseguir aquelas criaturas criadas para a fuga. Estavam a postos, e qualquer passo a mais desvelaria o ataque. Arcos retesados, lanças apontadas; todos esperavam por Chaka.

Virou a lança, e acomodou-a na palma da mão. Inspirou fundo e atirou.

Choveram setas; riscos de madeira e pedra cortaram o ar seco. Imediatamente, as impalas levantaram a cabeça e saltaram. Fugiram em poucos pinotes e observaram os caçadores em festa, celebrando a hesitação de um par de filhotes. Acenos de braços e línguas frenéticas ecoaram alívio e acenderam esperança para mais um dia na saga que chamavam de vida.

Cautela, luxo tolhido pela escassez; o regozijo aos deuses distraiu-os. Enquanto amarravam e suspendiam a carne, as impalas se dispersaram novamente. Chaka pôs-se em alerta, mas não viu nada. Não a tempo de perceber que a linha tênue que separava presas de predadores havia sido cruzada: um bando de leoas rastejava na gramínea alta da margem oposta.

A generosidade dos deuses logo se transformou em vingança. Amigos caíram sob o mesmo ataque furtivo que desgraçara as impalas. Alguns tentaram correr, enquanto alerta e desespero soaram no vazio da savana. Não havia resposta. Nem dos deuses, nem de reforços de qualquer espécie; estavam sozinhos. Chaka, atordoado, tentava coordenar qualquer coisa, resistência ou fuga, em azáfama de poeira e brados.

As felinas passaram em raio, em bela exposição de galope, para derrubar os que correram adiante. Derrapagens ásperas, saltos falhos. Mas não precisava muito para abater criaturas tão inaptas a campo aberto. Garras rasgaram costas inteiras, dentes atiraram coxas para o alto. Pó rubro maquiou toda aquela carnificina, de jovens e mais velhos, ímpios e devotos. Todos caíram.

Uma revoada de pequenos flamingos respondeu, ao longe, o auge daquela opereta violenta da natureza, quando dois olhos o encararam. Chaka viu-se neles; a fome era inimiga de todos. Não podia julgá-la e, mesmo que pudesse, sabia que seria condenado. Apertou a lança na frente do peito e fincou os dois pés na terra. Não havia fome, nem desespero; o medo deu lugar à raiva. A raiva lhe dava força, estufava as veias, enrijecia os músculos. A raiva contraiu sua testa, rangeu os dentes e limpou a mente. Era tudo ou nada. Ali e agora. A raiva, única aliada. Urrou em prece inteligível para os deuses, mas não obteve resposta.

Sangue escorria pelo focinho. Os caninos à mostra fizeram Chaka pensar que sua postura perante ao medo estava sendo testada. Se houvesse confronto, sabia que não teria chance de sucesso. Se a natureza vinha coletá-lo, a leoa era o instrumento inexorável. Mas a fome não fornecia escolhas; o ataque veio, mas não dela. Uma mandíbula pulou no antebraço, arriando-o.

Outra leoa pesou sobre os ombros, lacerando o dorso. Debateu, lutou, de joelhos. Num ímpeto de fúria, levantou a lança, fincando-a no peito de uma delas. Vendo-o combalido, o focinho ensanguentado avançou. O combate foi rápido; dois contra um, e mais vindo. Não havia justiça. Não haveria piedade.

O gosto amargo na boca era vermelho e a sede estirou a língua. Os pulmões aspiraram pó e pêlos, enquanto foi arrastado. Era tudo tão natural, banal até. A natureza é violenta. A natureza é morte a todo momento, em todos os lugares. Ali, agora, para um viver, outro precisava morrer. Não era difícil de compreender isso; pelo contrário, havia até certa beleza. Poesia até, se Chaka soubesse o que é isso. Línguas largas saboreavam tripas espalhadas pelo solo, pintando desenhos em tons variados rubros. Eram lindas. Animais comungando como fariam, se tivessem levado as impalas à tribo. Leoas se banhando em sangue, como as crianças se esbaldariam. Focinhos e beiços molhados; violência em telas diferentes.

As leoas não eram inimigas. Não havia deuses, nem vilanias. Soluçou para respirar, uma última vez. Aquela epifania da violência, e morte. Era parte do todo. Uma catarse de beleza exuberante, que transborda a visão. Na cegueira da morte, pôde, por fim, ver: não há moral no que é natural.

***

A Ilha de Jade

Se um homem não descobriu nada pelo qual
Morreria, não está pronto para viver.”

Martin Luther King Jr.

O sol despontou no horizonte, rasgando o escuro em tons azulados, em um vazio de nuvens refletido nas águas. O crepúsculo expulsava suavemente a atmosfera melancólica da noite, desvelando a vida que o dia trazia à tona. Um bando de cegonhas brancas já beliscava o solo da planície que cerceava a floresta da riba oposta, relaxando antes da longa jornada em direção ao sul. Ao alto, um falcão-peregrino mergulhava, contrastando sua velocidade com a morosidade das corujas boreais que se entocavam na área mais densa das coníferas. O céu aos poucos tomava conta da paisagem da varanda de pedra, um mirante sublime que se perdia na imensidão da paisagem lacustre.

Poucas coisas na natureza inspiraram tanto a imaginação como o firmamento. A dificuldade de examiná-lo, os fenômenos incompreensíveis e habitantes desconhecidos sempre deslumbraram o homem. Porém, o homem é animal orgulhoso e recusa-se a ser ignorante em qualquer assunto. Ele precisa ser onisciente. O homem precisa mais da onisciência que qualquer divindade. Precisa mais que estar ciente de todos os mistérios do mundo, pois não sabe lidar com a frustração de sua capacidade investigativa limitada, seja individual, seja historicamente.

Já dizia o grande poeta: “O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é”. Se o homem não pode ser onisciente, ele inventa alguém que o é; mas alguém em sua própria homenagem, semelhante em atributos, atitudes e personalidade. Deuses e mais deuses, com os quais possui conexão íntima, seja de amor, amizade, proteção ou servidão. É curioso que o orgulho, provavelmente a característica mais marcante da raça humana, impeça o homem de dizer-se ignorante, nem que para isso seja capaz de gerar a ideia de submissão.

E é aí que a arrogante incapacidade de dizer “não sei” se esconde, e à qual dá-se o nome de fé. Vencido pela incapacidade em explicar tudo à sua volta, o homem volta-se a ela, no desespero em restaurar o orgulho ferido, como uma criança birrenta faz beicinho ao tomar um não dos pais. Porque, com a fé, ele não precisa saber de tudo, mas tem alguém sempre ao lado, que pode tudo e que sabe tudo. E, a partir do momento em que se dá tal poder ao homem, ele, em suas imperfeições, altera, inventa, imagina, cria, distorce e cega. A fé se torna, portanto, a ferramenta mais cruel da vaidade.

Completara o sono de três noites e, pela manhã, já não havia mais vaidade. Nem nada que pudesse sugerir a existência do céu, fosse limpo ou nebuloso, entre aquelas quatro paredes úmidas de blocos de pedra avantajados, sem qualquer saída de ar aparente. No centro do aposento, ela repousava sobre uma cama coberta por um dossel, meticulosamente fiado. No entanto, o véu não parecia funcional como proteção contra insetos, já que as linhas finas de seda eram espaçadas e trançadas poligonalmente para formar uma gigantesca teia decorativa. O par de criados-mudos preto-arroxeados, com pernas compridas e arredondadas, abraçava a cama king size, enquanto luminárias frias acima da cabeceira acendiam parcamente o aposento. Ao pé da cama, um tapete púrpuro de barbante revestia todo o chão até o armário que se escondia na penumbra da parede oposta.

Abriu os olhos devagar. Estava nua, coberta apenas por um edredom que combinava com o carpete incomum. Sentia-se fraca demais para se levantar, mas precisava saber o que havia acontecido. Os músculos estavam doloridos, talvez pelo seu estado combalido, talvez pela inércia inconsciente em que ficara durante sabe-se-lá-quanto tempo. Decidiu levantar o cobertor para examinar seu corpo; estava limpa, imaculada. “Está tudo no lugar, pelo menos.” – pensou. E realmente estava tudo no lugar; não havia marcas, nem sequer as perfurações venais próprias de hospitais. Apenas a mórbida palidez cutânea.

Não, definitivamente não estava em um hospital, fosse em Silent Hill, fosse em uma obra bizarra burtoniana. Um calafrio percorreu a espinha e, rapidamente, verificou os braços mais uma vez – agora com mais esmero –, procurando por qualquer furo pelo qual pudessem ter injetado substâncias dopantes ou alucinógenas. Não encontrou nada. Passou a mão nos cabelos; ainda que desalinhados e amassados, estavam sedosos e escovados. Em que porra de hospital alguém se daria o trabalho de cuidar dos seus cabelos? e Teria sido capturada por algum maníaco? foram seus primeiros pensamentos. Arquejou durante alguns instantes e, quando ia se levantar, a maçaneta girou num clique.

Enrolou-se na coberta com a súbita interrupção da série de paranoias que percorrera sua mente em fração de segundo. Apertou-a com as mãos e encolheu-se. Sentia-se exposta, vulnerável, e não sabia de quê ou de quem estava à mercê. Uma mulher entrou e virou-se para fechar a porta, em silêncio. Apenas quando girou novamente para o quarto foi que notou o medo estampado nos olhos que saltavam do cobertor. Sorriu e caminhou até a cama.

O carmesim da cabeleira retesada para trás destacava os traços crus daquela face sem maquiagem que insistiam debalde, porém sem sucesso, em apagar as órbitas oblongas. Ela deslizou pelo cômodo em sua direção, com os pés nus, despida de qualquer glamour. O sorriso já fugira do semblante, dando espaço aos lábios descontraídos, entreabertos, exalando sensualidade. Inebriou-se, sem licença para matar, naqueles dry martinis que abrigavam olivas rebeldes em suas superfícies. Não sentia mais a ferida em seu pudor. Mamilos sobressaltados fisgavam o tube de cetim que se enrolava nos quadris, abrindo-se em uma saia longa. O vestido permitia uma espiada misteriosa no corpo que cingia, ainda que não revelasse muito mais que a silhueta. Era todo branco, exceto pelo símbolo que parecia ser um tipo de lâmina, como um triskelion tribal cheio de farpas, que pendia lasso, mas atado em sua cintura. Deixou-se embriagar pelo desfile daquela ruiva sem glitter. Quando a mulher sentou na cama, ao seu lado, os dedos já estavam frouxos e o rosto, à mostra.

How are you? Are you feeling better?

Os cabelos estavam presos parcialmente num coque, e escovavam as costas nuas até a altura da cintura, retribuindo o carinho recebido ao terem sido preparados. Percebia, agora mais perto, que ela usava uma gargantilha em tecido que parecia fazer parte do vestido, cobrindo-lhe boa parte do pescoço. Uma gota verde fosca lapidada, quase oculta pelo queixo suave, prendia a tira. Lembrou-se imediatamente de Bram Stoker, e, num flash, imagens de morcegos, estacas e sangue jorrando mostraram-lhe o verdadeiro significado de terror. Imagens gore de um horror que Coppola nunca havia conseguido lhe incutir. Mas o que fazer agora que aquela Kate Pierson jovem e contida havia se transformado numa predadora morta-viva? Não, fala sério; não é possível! Porra, é tudo ficção! – tentou afogar o desespero no ceticismo, mas, desta vez, a aridez dominou-a.

– Você entende inglês? – insistiu em um sotaque que comprovava que o inglês não era sua língua materna, mas tampouco dava pistas de sua terra natal. – De onde você é?

– Brasil. – balbuciou, com o acento fechado na primeira sílaba.

– Ah, sem prrroblema. – respondeu, agora em português, ainda que carregado na consoante gutural. – Meu nome é Cloto. Relaxa, não irei lhe fazer mal algum.

Ainda corria sangue quente nas veias, como pôde perceber pelo toque morno da mão em seu braço. As unhas curtas e incolores, apesar de bem cuidadas, contrastavam com as garras características dos monstros clássicos. Não, ela não poderia ser uma descendente de Tepes. Os receios foram esvanecendo-se aos poucos, conforme se embebia no carisma turvo e despretensioso de Cloto.

– Onde estou?

– Você sofreu um acidente. Encontramos você congelando às margens próximas daqui.

O fogo. O naufrágio. A queda. Não, não fora tudo um pesadelo e, pelo jeito, tampouco estava sonhando agora. Estava desnorteada, mas precisava avisar alguém que estava viva.

– Preciso fazer uma ligação…

– Hum… isso será um pouco difícil. Não temos telefones aqui.

– Meu celular… estava no bolso da minha calça…

Cloto pressionou os lábios e baixou os olhos. Abriu a única gaveta do criado-mudo e entregou-lhe o aparelho, como quem carregava um filhote de pardal que tentara voar pela primeira vez e falhara. Fora um pedido estúpido; sabia que mergulhar em um lago com o celular ligado não era uma circunstância contra a qual era protegido. Mesmo assim, com aquele último fio, tentou ligá-lo, em vão, quando uma palma de mão tocou sua testa.

– Sem febre. Não é nosso costume receber hóspedes, mas você nos deu um baita susto!

– Preciso das minhas roupas. Preciso levantar. – endireitou-se na cama, sem importar-se em deixar o busto à mostra. Que porra de lugar, em pleno século XXI, não possui um maldito telefone?

– Hum… A raposa que espera a galinha cair do poleiro morre de fome, certo? Vamos, vista-se. Há roupas no armário. Espero você lá fora.

***

Tirou de uma vez as cobertas e pôs de pé, assim que ouviu o ferrolho da maçaneta. Sentiu umidade sob as solas, levantando-as levemente, uma de cada vez, por instinto. Era um tipo de líquido viscoso, que formava finos perdigotos conforme fosse andando, mas não se amontoava em poças. Era morno, e parecia revestir os grossos fios de barbante que permeavam toda a extensão do chão do quarto, como um organismo simbionte alienígena. Sentiu nojo, mas acabou se acostumando com a temperatura agradável da substância. Pôs-se a caminhar em direção ao outro lado do cômodo, sentindo fraqueza nas pernas. Por vezes, abanou os braços no ar, tentando equilibrar-se. Até que visualizou um símbolo desenhado no meio da porta do closet.

Havia uma inscrição que não conseguia ler, em caracteres que não sabia identificar. Talvez fosse algum idioma do sudeste asiático, ou o alfabeto de uma língua antiga, já morta. Não entendia bulhufas de heráldica, mas parecia algum tipo de brasão. Ou o armário era bem antigo, ou havia viajado no tempo, de volta à Idade Média. Olhou para o chão que, por um milésimo de segundo, pareceu movimentar-se. Sentia-se como se estivesse sendo observada por oito mil olhos. Abraçou-se, mais uma vez sentindo-se nua, vulnerável, e apressou-se em abrir o armário.

Suas roupas não estavam ali. Havia apenas um vestido branco, longo e simples, com o mesmo símbolo que avistara pendendo à cintura de Cloto estampado no lado esquerdo do peito. Não tinha opção; ou usava aquilo, ou saía pelada. Colocou-o, deixando-o escorregar pelo corpo. Ajudou-o a descer pelo quadril e sentiu-se apreensiva com a precisão da bainha, que terminou o caminho cobrindo seus maléolos. Que símbolos todos eram aqueles? Estaria em poder de uma seita ou coisa do tipo? Aquelas roupas… seriam algum tipo de uniforme? Sacudiu a cabeça, e preferiu não dar vazão a mais conjecturas paranoicas. Pelo menos não enquanto não tivesse motivos claros para se preocupar. Queria dar prioridade às ações que a pudessem lhe tirar dali e retomar sua vida. Mas, pera… que vida?

Sorrira com desdém a si mesma. “Porque uma risada é a resposta mais sábia e mais fácil para tudo que é estranho”, já dizia Melville. Após o sorriso, entretanto, veio o medo. Era, no entanto, aquele medo instintivo, com o qual todos os humanos lidam perante ao desconhecido. Mas, por incrível que pareça, não tinha nada a ver com os últimos incidentes, com o lugar bizarro em que acordara ou com a misteriosa mulher que a esperava atrás da porta. Tinha medo daquele reinício de vida, lá na terra de palmeiras e sabiás, em que tudo lhe era estranho. Aquele medo que a incapacitava de reconstruir a vida e a aprisionava em um loop entre o tédio e o ócio. Aquele medo que a fez perder a voz interior ao gritar todas as manhãs, dia após dia, “Meu reino por um cachalote branco!”. Pegou as alpargatas brancas, calçou-as e caminhou sem dificuldade até a porta. Abriu-a.

O corredor era amplo, e pisava em placas losangulares e polidas que refletiam a luz do sol que penetrava pelas vidraças em forma de portais. Ao olhar para o chão, parecia estar sendo sustentada por uma doppelganger verde. Ao longo da galeria, havia colunas intervaladas com estrias côncavas nos fustes, terminando em capitéis dóricos para erguer abóbadas nervuradas. Apesar do interior parecer bastante monástico, a impressão era de que estava em algum tipo de palácio, rústico, sem extravagâncias como pinturas de autorretratos ocupando uma parede inteira ou lustres de cristais abastecidos por quase meia centena de castiçais. No entanto, os reflexos clorofilados que emanavam das paredes mortas evocavam uma atmosfera intimidadora, ainda que majestosa. Aparvalhou-se, desequilibrando-se por um momento na pedra semipreciosa límpida que cobria o pavimento.

– Bem-vinda ao Palácio de Jade. – recebeu-a Cloto, divertindo-se discretamente com a perceptível perplexidade da nova hóspede. – Venha, siga-me.

Caminharam em silêncio. Cloto, mais uma vez, desfilava à frente. O balançar das ancas ressaltava a circunferência errática das nádegas em movimentos senoidais. Sentiu algo acendendo dentro de si. Algo que parecia adormecido por muito tempo, mas que, agora, fora finalmente fisgado. Seguia a flautista como uma ratazana, com dentes incisivos a postos para mordê-la. Passaram por várias portas, arcos, outros corredores e até portões, e só conseguia fixar-se no meneio daqueles ombros, agarrando-se na esperança de que, um dia, pudesse, pelo menos, tocá-los. Preciso avisar a alguém que estou aqui, seja lá onde for… lhe veio à mente um par de vezes, e não conseguia manter o foco com os vislumbres daquelas costas desnudas, permitidos pelo embalo dos cabelos. Piscou demoradamente franzindo a testa.  Que está acontecendo? Não sou assim… Mas o desejo sobrepujava o discernimento, e voltou a fitar o rastro vertical sinuoso daquela cintura.

Apesar do embate confuso que se formava em seu imo, sentia-se, ali, naquele momento, surpreendentemente confortável. Talvez por sentir uma chama que há muito não ardia. Aquela chama, que nunca se acendera para uma mulher, ardia impetuosamente, como jamais ardera para homens. Era labareda que consumia toda a razão e secava as partes internas das coxas conforme caminhava. Seguia. Seguia. E seguia Cloto, aonde quer que fosse, mesmo que significasse se afogar como uma roedora mesmerizada.

Chegaram a uma antecâmara que se abria para um salão imenso, num arco lapidado entre colunas que sustentavam criaturas que pareciam gárgulas não hominídeos. No centro, a claraboia projetava um banho de luz solar esverdeada, como se estivesse pronta para receber e destacar a atração principal de um show de rock bizarro e kitsch dos anos 70. O vitral monocromático não era suficiente para suprimir as penumbras nas bordas do ambiente, mas formava uma imagem difusa do símbolo que Cloto carregava na cintura. Uma série de lâminas sobrepostas se estendia dali até uma grande poltrona no lado oposto, como se um monstruoso réptil rastejante acabara de trocar de pele. O tapete de escamas prateadas e sem vida emergia em alto-relevo do assoalho, acompanhando os degraus que elevavam a plataforma e revestindo a própria poltrona, no assento e no encosto. Uma formação rochosa de grandes proporções se precipitava do teto em direção ao trono, formando o que parecia ser a cabeça de um dragão. Ou melhor, como ela imaginava que seria a cabeça de um dragão.

As pernas bambearam. Quando voltou a olhar para as colunas que marcavam o portal, percebeu que as gárgulas eram, na verdade, esculturas de dragões em miniatura. Que porra de lugar sinistro é este??? Não, não queria entrar ali; pelo contrário, queria dar o fora dali. Mas estava disposta a seguir aquela mulher até os confins do universo. Não, hesitou por um instante. Cloto percebeu e se virou. Pegou suas mãos gentilmente.

– Já estive em seu lugar e sei como é. Sinto até hoje o medo que este lugar imprime em nós. Mas não é um lugar para sentir apenas medo. Venha, vou lhe mostrar algo. – conduziu-a por uma das mãos.

Passaram pelo pórtico e caminharam salão adentro. À medida que se aproximava, podia ver melhor através das sombras. Obteve uma visão mais clara do trono; com inscrições cravadas ao longo da jade esculpida que não conseguia decifrar. Detalhes suaves e esmeraldas retorciam-se como tatuagens tribais em uma pele escura. Nas arestas do topo do encosto e dos apoios de braço, protuberâncias pungentes simulavam acúleos em prata e em grande quantidade. Não havia pernas na grande cadeira, mas uma base única, sólida, com sulcos que passavam pelos braços da poltrona e contornavam o topo.

Piras vazias estavam suspensas por pedestais longos e finos, guardando as escadas que circundavam o assento magnífico. No fim dos degraus, duas flâmulas pendiam do teto e cobriam as paredes de cada lado de um portão em arco pontiagudo. Mais uma vez, agora bem mais presente, aquele símbolo estava estampado em negrito, num fundo branco: três cabeças reptilianas farpadas e com pescoços espiralados unidos em um centro pontual.

Pinçando graciosamente o vestido na altura das coxas, Cloto subia os degraus lentamente, como se esperasse ganhar tempo para que o medo da hóspede desse lugar ao deslumbre. Chegando ao topo, pararam em frente ao portão gótico, precisamente atrás e acima do trono, e Cloto percebeu que sua tática funcionara. Segurou as aldrabas com firmeza.

– Creio que você esteja repleta de perguntas, mas primeiro vou lhe apresentar o Mirante Sublime. – empurrou as portas duplas pesadas e a luminosidade natural invadiu o ambiente.

Fechou os olhos imediatamente. Ousou abri-los aos poucos nos momentos seguintes, confortando-os com as cores dos jardins à frente. Cloto não se deteve e adentrou-os. Seguiu-a pelo caminho de pedra principal, marchando pela anarquia de olores de nêvedas-dos-gatos, jasmins, alfazemas e sálvias-ananás. Passou pelas ramificações dos pisos em xadrez clássico que levavam a clareiras cultivadas com gardênias níveas salpicadas com gerânios amarelos, ou gérberas multicolores em meio a goivos pálidos. Os canteiros eram baixos e delimitados por granitos verde-escuros, permitindo a visão até os balaústres de estilo francês que protegia os desavisados da queda fatal. A combinação caótica dos aromas contrastava com simetria dos plantios, mas sugeria harmonia naquela batalha eterna entre Apolo e Dionísio, fazendo-a sentir-se, inusitadamente, serena. Precisava aproveitar aquilo. Cerrou as pálpebras suavemente e inspirou fundo. Ah, se acreditasse em meditação, aqui seria, provavelmente, o lugar perfeito para isso. Não demorou, portanto, para abri-las, cética, deitando a visão sobre aquelas estátuas de bronze que emergiam como o marco vaidoso do arquiteto de uma obra. Aliás, havia algo de muito errado com o arquiteto daquele lugar e sua obsessão, aparentemente patológica, por dragões. Devia ser algum nerd riquinho jogador de RPG…

Libertas, Fiducia, Honestas, Obsequium

Libertas… Liberdade. A liberdade inata que aprisiona a formação do caráter e mantém os pais como carcereiros implacáveis. Aquela liberdade castradora que cerra as asas dos sonhos e forra o chão com o vil metal. A liberdade do cordeirinho que sequestrou anos de sua vida para sustentar coisas que outros, e não você, projetavam sobre si. Ah, a liberdade! Aquela que se leiloa a um governo corrupto em troca de ordem e passividade. A afetiva que é renegada pelas responsabilidades impostas por cônjuges e pela sociedade. A utópica em que podia fazer o que quisesse, mas que, na prática, a condenava a julgamentos arbitrários e perniciosos sobre todos os seus atos. Aquela liberdade disfarçada de outro nome com a qual se suborna o homem com promessas do Éden. Ah, doce e sempre bem-vinda liberdade: a ilusão capciosa de que podemos ser, gratuitamente, algo além do que somos. Buscara-a durante toda a vida justamente para descobrir que está condenada ao livre-arbítrio, num chiste paradoxal em que Jean-Paul Sartre ria às pedradas de responsabilidade e consequência que lhe atirava. Sentia-se presa a carregar um fardo que vinha lhe esmagando mais e mais, à cada escolha que fazia para si mesma.

Era a única palavra que conseguiu identificar com o latim pobre dos carpe diem arcádicos e das monografias lato sensu. Aliás, mesmo sem ler qualquer obra de Claudio Manoel da Costa, decidira tatuar a frase na nuca, após o divórcio, traçando um novo caminho para a liberdade que almejava. Pretendia viver sob este lema, talvez a sentença mais famosa da literatura brasileira (que, curiosamente, não era em português), assim como outras tantas mulheres de mesma idade corriam atrás das letras itálicas e desenhadas cravadas na própria pele. No entanto, falhou miseravelmente, conforme o desânimo tirou do mar sua Moby Dick e colocou-a sobre os ombros.

Não havia qualquer outra informação sobre as estátuas na discreta inscrição no sopé. Um dragão, maior, bem encouraçado e mais espinhento, segurava um ovo esguio e dourado junto a outra criatura similar, porém mais delicada e elegante, tal qual uma lâmia búlgara de única cabeça. Era uma escultura grotesca, reinando sobre o caos e a ordem daqueles jardins e expurgando qualquer impureza daquele ambiente sublime.

Aproximou-se de Cloto, já na balaustrada, e aproveitou a vista. Mas não foram as águas, as nuvens ou os pássaros que clamaram por seus olhos. Aquela mulher era uma visão mais sublime que o próprio mirante que carregava o nome. Arrependeu-se por desperdiçar tanto tempo em contemplar o local, enquanto poderia estar admirando os poros daquela pele. Sentia-se enfeitiçada e, tendo consciência disso, não fazia a mínima questão em oferecer resistência.

– Daqui, filenáda, você pode ver onde estamos. O nome é Dracília, mas chamamos também de Ilha de Jade. – apontou, abrindo os braços com as mãos espalmadas ao céu, aproveitando o dia como se estivesse em um teatro onírico de poetas antigos, mas não esquecidos. Apoiou-se, então, de costas no parapeito para sentir  o impacto daquelas palavras aos ouvidos da recém-chegada e banhou-se na suavidade do vento lacustre.

Estava em um ilhote rochoso, ligado ao continente azimutal através de águas pardas e rasas que escondiam a maior parte de um istmo natural. Estava debruçada sobre uma cidadela, enquanto o Palácio de Jade a observava por detrás, com a única torre vigiando a amurada de toda aquela magnífica plaga flutuante. Dali do terraço onde estava, duas escadarias laterais despencavam até uma praça, que servia como nó, atando e redirecionando várias trilhas incongruentes que se embrenhavam pelos bosques. O terreno acidentado era bastante copado, mas conseguia distinguir, dentre toda aquela ramagem, resquícios de choupanas espalhadas, acompanhando as sendas mata adentro. Bem abaixo de onde estava, uma construção corpulenta e sem sacadas beirava um lado inteiro do terreiro, dominando aquele centro, tal qual a casa-grande subjugava o engenho no Brasil colonial. No cerne da vila pouco povoada, um modesto chafariz de dois andares jorrava água em silêncio, enquanto um par de pica-paus exibiam salpicos brancos nas asas rasantes ao redor.

– Que… que lugar é este? – sentia-se como se tivesse sido abduzida para uma espécie de Torre de Babel temporal.

– É lindo, não é? – sorriu, divertindo-se comedidamente com o estupor alheio.

– É… – estava confusa. Não sabia nem por onde começar. Eram tantas dúvidas que embananou-se nas questões. Queria saber mais sobre onde estava; mais que isso: queria saber mais sobre Cloto. Para isso, precisava sair daquele estado lacônico de torpor. – Hã… aqui… é uma espécie de mosteiro? Você vive… mora aqui? – foram as primeiras perguntas que tartamudeou, tropeçando na própria língua.

– Hum… nunca havia pensado desta maneira. Mas posso dizer que sim, estamos numa espécie de mosteiro. Só que sem monges. Nem monjas. – pausou, para dar tempo da resposta ser absorvida. – Vivo sim. Eu e todas as minhas irmãs. Venha, vamos conhecê-las!

Só conseguiu pensar em que número significava aquele “todas”. Talvez ela não soubesse quantificar neste idioma. E foi aí que percebeu o quão bom era o português dela. Era tudo tão surreal (o cruzeiro de James Cameron, o Palácio do Mortal Kombat, os Jardins Suspensos da Babilônia, a ilha das amazonas de Themiscyra e todo aquele convento de Umberto Eco), que aquela Pamela Isley fluente em português não era algo tão absurdo. Mas agora, além da embriaguez causada pela umidade das virilhas, sentia despertar um interesse que transcendia a mera curiosidade.

***

 

 

Mimo Brasileiro

Gritaram do Congresso em margens túrbidas

De uma nata ímpia o riso em regozijo

E à noite subjugo em ondas rúbias

Ofuscaram fossas rasas de foragidos

 

Se ao abismo da autoridade

Conseguimos deduzir ameaça e morte

Em teu reto, imoralidade

Escraviza e abandona à própria sorte!

 

Ó palhaçada

Desgovernada

Bate! Bate!

 

Brasil, podre por dentro, enrijecido

De ódio e de egoísmo à merda afunda

Se em teu folgado cu, rasgo fedido

A corrupção se espalha pela bunda

 

Gestante de acúmulo de riqueza

És seco, és fome, pálido desgosto

E no teu futuro, crianças em pobreza

 

Terra largada

Malas de mil,

És tu, Brasil

Ó palhaçada!

São tantos crimes no covil

Que palhaçada

Brasil!

 

Regado eternamente em benefícios

Auxílios-moradia, rombos de fundo

Acordas, ó Brasil, desta novela

Deste acordo com o Supremo e com tudo!

 

Das barragens mais sofridas

Teus sisudos, sujos campos têm mais lama

Nossos políticos são homicidas

Nossos crimes, um silêncio que nos chama

 

Ó palhaçada

Desgovernada

Bate! Bate!

 

Brasil, de hipocrisia seja símbolo

Da cruz que o Estado laico tem pregado

E diga a intolerância desta flâmula

Deus é daqui, mas quem trabalha é o diabo

 

Mas se foge da justiça o endinheirado

Verás que as leis só valem para os pobres

Bandido bom é aquele abastado

 

Terra largada

Malas de mil,

És tu, Brasil

Ó palhaçada!

 

São tantos crimes em Brasília, no covil

Que palhaçada

Brasil!

O Canto das Cotovias

Mexeu na carne preta que restava à frente, enrolou-a na folha de hortelã e levou-a à boca. Mastigou o mínimo para fazê-la engolível, e virou um gole de vernon. Pronto, desceu. Tocou o óleo gosmento que corria no prato e cheirou-o. O farfalhar das ondas que lhe cativara, apanágio de toda a região de Portos Amenos, agora irrigava as narinas em profusões de lagostins pútridos e fezes de gaivotas. Segurou o regurgito de nostalgia, quando foi interrompido por vozes ébrias.

– Que porra você está fazendo? – gritou o primeiro, explodindo o rastro úmido das palavras arrastadas por entre o bigode amarelado.

– Olha por onde anda, babaca. – respondeu o outro, empurrando-o em direção à mesa de Ceresso Laquessante.

Ah, não, de novo não. O mondrongo escorregou e despencou, mergulhando as bochechas imundas no caldo oleoso de baleia. Sacudiu a barba quando tentou se apoiar na mesa, que rachou ao meio. A este momento, Ceresso já estava de pé, esquivando-se da gosma respingada pela cambalhota do prato, que atingiu a careca de outro beberrão. Quando a balbúrdia descambou para arremesso de cadeiras, quebra de mandíbulas e voos de cacos de garrafas, já estava na rua, batendo a porta e isolando azáfama da taciturnidade da noite crua.

Ceresso se encantara com Concharia, o portal ocidental de entrada para Arcádia. Situada entre a Enseada dos Ecos e a Baía Perolada, era a maior do cinturão de cidadelas conhecido como Portos Amenos. Do alto da Colina do Assobio, mansões com guaritas e palacetes murados contrastavam com a aquarela de centenas de botes pesqueiros que vagueavam na tela azul do porto. A maresia inebriava o olfato e a brisa refrescava o rosto jovial. De lá, podia-se ver a cerca pétrea marcando os limites da grande concha de abertura setentrional para o mar; uma muralha que se estendia a rochedos além das ondas, com baluartes acenando flâmulas púrpuras no céu pontilhado de gaivotas, albatrozes e atobás. O Cavalo-Marinho, fortaleza a noroeste, e seus gigantescos píeres abrigavam uma dezena de caravelas de três mastros, a chamada Guarda do Mar, assim como a Cavalaria de Portos Amenos. Recheando o labirinto de vielas que se alastrava do sul até o porto, um conglomerado de choças inchava o centro até a parte mais oriental: o Caldo.

A escuridão escondia os pequenos barcos coloridos, mas ainda podia ver o balouçar dos baleeiros, graças a candeias pendentes e espalhadas pelas esquinas. Mais adiante, uma carraca repousava com as velas arriadas e grandes caixotes no convés. Cobriu a cabeça com o capuz e afastou-se em direção ao breu, subindo a longa e sinuosa Rua dos Finórios, que cortava todo o Caldo.

O chão era um lamaçal fofo e rançoso, que voltaria a escorrer ao nascer do sol. Logo no Primeiro Sino, ou Alvorada, tendas de pescados pipocariam a cada quarteirão, jorrando água turva, sangue de peixe e restos de mariscos que se aglomerariam em correntes de imundícies. A xepa inundaria as ruelas, batizando o bairro com o nome popular. Ali, moscas-varejeiras beberiam do Caldo, antes de depositar larvas em indigentes seminus, enquanto ratazanas nadariam para lamber velhas aleijadas por baixo dos vestidos. Canelas bolhosas acelerariam, indo e vindo numa corrida impossível contra a miséria. Mulheres esticariam as crostas cor-de-mel nos cantos da boca, mostrando gengivas avermelhadas e intumescidas, ao desequilibrar-se. Pés descamados em calçados abertos chafurdariam em sopa de vermes, sobre as quais a massa se regozijaria ao esfregar de pústulas que selasse um escambo purulento. Homens com fundilhos pintados de pardo fecal alimentariam as poças, com urinas de jatos negros. Crianças ranhosas de costelas rompantes e abdômen túrgidos pulariam de lá para cá, descarregando atiradeiras em animais pestilentos. Palavras de ordem seriam abafadas por verborragia xucra, em profusão de perdigotos que estalariam nos olhares citrinos e febris do Caldo.

O encanto da costa se esvaíra graças ao interior da cidade. Agora, a maresia cedia à fusão de latrinas, hircismo e doenças, já que lagostins e gaivotas pareciam exalar bálsamo dos Meandros. “A mosca não tem vergonha da bosta, pois dela se alimenta.” – dizia sua mãe, mas queria distância daqueles tempos. O fedor fazia com que os estábulos que limpava quando criança se tornassem rios límpidos da Folha. Olhou para algumas malocas capengas de até um par de andares, num amontoado de argila, toras carcomidas e palha. Suspirou e forçou-se a lembrar da taverna onde estava hospedado, na Colina do Assobio, parte mais nobre da cidade. Afinal, ao toar do Último Sino, ou Sono, cada caminhada pelo Caldo era jogada no abismo de suas memórias, como reafirmação da promessa de nunca mais voltar àquela vida.

Havia poucas janelas acesas, e nenhuma viv’alma na rua. Nem as putas, que desafiavam ora o toque de recolher de criminosos, ora a autoridade das leis contra nudez. Um desafio feito, muitas vezes, em conluio com o próprio cônjuge. Honra que era manchada pela vergonha, enquanto o corpo da mulher era marcado por lágrimas, que escorriam por entre cicatrizes e porra. Durante aquelas noites, apertavam-se os três, uns contra os outros, cansados e sujos, para calarem o desespero. Ceresso sentia-se culpado pelos soluços da mãe, abafados pelo abraço do pai. Aquele lugar, o Caldo, trazia à tona o desespero daquela vida de outrora. E o fedor… O fedor desenterrava a vergonha de tê-los abandonado à própria sorte, ao cair nas graças do Magomestre Krono Ilmarinen.

Em breve, o Primeiro Sino marcaria o início de mais um Labor. Havia seis Labores que chegara em Concharia e, com apenas mais um, completaria uma Maltagem de nenhum progresso. Parou por um instante, e desenrolou o pedaço de pergaminho. Ferro e bugalho marcavam a pele de carneiro, em caligrafia desenhada à pena de ganso:

O canto das cotovias anuncia a aurora

Voam pelas fossas as aves da sarjeta

Pios que não sentiram pena de outrora

Verão o bater de asas da Vendeta

O vento assobiou, acompanhando o silvo das cigarras. Ceresso sabia que a calmaria era máscara que cobria a tempestade de crimes que assolava a região. A cidade era palco de disputa entre várias organizações criminosas, e o Caldo era a estrela. Esfregou o sangue seco com o polegar, e guardou a única pista que tinha sobre o assassinato de Teli Ulgan, o Magistrado de Concharia.

A pala desfiava em maus cortes por cima do couro curtido há Forjas, misturando-o às mazelas do ambiente. O rosto em pele de carvoada, com queixo quadrado e olhos apertados, camuflava-o nas sombras das vielas vazias. Ainda que o contorno fino se movesse em alarde, a violência em Concharia era cortina que o evitava, encerrando espetáculos sobre os mais desafortunados. O manuscrito aprisionava-o ali, no odor da indecência, em tentativas sem sucesso de descobrir qualquer coisa sobre as Cotovias.

A mensagem era clara, porém um passo maior do que aquela facção de maltrapilhos seria capaz de dar, com tentáculos curtos e imprósperos. A escrita resoluta, de tinta rebuscada, sugeria os serviços de um calígrafo, luxo que não se encaixava nos moldes do grupo. O requinte da Camarilha combinaria melhor, não fosse a lambança de sangue e retalhos no corpo da vítima. Os assassinos da Camarilha são limpos e eficientes. Um pescoço quebrado. Enforcamento, ou estrangulamento. Uma lâmina curta no coração. Até mesmo um talho rápido no pescoço, mas eles não se dariam ao trabalho de pregar olhos abertos, arrancar línguas ou cortar pontas de dedo fora. Ainda que atacar o Magistrado fosse sofisticado, aquilo estava mais para uma empoleirada das Cotovias.

Ali estava, portanto, de peito aberto e mão à rapieira, aguardando qualquer contato com o submundo de Concharia e desafiando o delinquente toque de recolher. A lua refletia tons azulados do suor que brotava da moleira endurecida, mas a boca secava o gosto amargo da última refeição. Puxou o odre, e ouviu um breve tilintar, quando esbarrou no saco de moedas preso ao cinto. “Honra é para os ricos. Enquanto você não puder desperdiçar comida, nunca terá tempo para se preocupar com honra.” – seu pai lhe ensinara, quando o tirava de casa para caçar vaga-lumes, na brincadeira que ocultava os desafios maternos. Mas agora, apesar das vestes surradas, podia se preocupar com honra.

“Uma derrota honrada vale mais que mil vitórias desonrosas.”

Mais que isso; Ceresso Laquessante vivia sob as As Sete Leis da Cavalaria, ou Radamanto. Deu uma golada, para lavar o acre de gordura mal cozida. O nariz largo separava bochechas alquebradas sob a tez franzida, e contraiu-se em nojo para aspirar o ar pesado. Precisava destruir as Cotovias, e sair daquele antro o mais rápido possível. O vento arrepiou a nuca; o Caldo deixava-o enfermo. Prendeu o odre de volta, mas não houve tilintar desta vez; a bolsa de moedas havia desaparecido.

Olhou para os próprios pés. As botas esmagavam pedaços de carne e pelo, infestados de parasitas. Cascas enegrecidas, trapos desfiados, esterco velho e lenhas podres compunham o restante do patê que transbordava vida à espremida do calçado.  Se algo tivesse caído, ouviria o tinido de umas em outras, ainda que a terra tufada amortecesse e engolisse. Um archote lânguido, ao longe, foi o suficiente para entregar a silhueta trêmula que se esvaiu pela esquina.

Virou e correu em direção ao beco estreito. Cada passo afundava naquela neve de imundícies e o vulto se adiantava, sem sequer olhar para trás. Roupas em varais intocáveis giravam nos fios conforme a lufada da caçada as atingia. O sossego entre Sono e Alvorada e o sigilo das nuvens abafavam os barris e caixotes derrubados no caminho de Ceresso. Não se importava com as moedas, mas estava ali, ao seu alcance, o primeiro encontro com o submundo de Concharia. O vislumbre de desencavar qualquer informação sobre as Cotovias o impulsionava, em determinação que adentrava mais pelas veias do Caldo.

Saltaram sobre a cerca de uma pocilga, atravessaram a ruína de um mocambo abandonado, subiram carroças vazias e carunchosas, e passaram por estaminés fechados e apagados. O ladrão contestava, com sucesso, um dos homens mais rápidos de Arcádia. Chegaram a uma rua que fazia um L, bem em frente à porta com uma tartaruga com cabeça de cabra. O ladrão derrapou, sem cair, mas ainda assim perdendo fração de tempo valiosa. Ceresso atirou a rapieira, que atravessou o capuz e o prendeu com afinco no meio dos olhos da caricatura ovídea.

O ladrão mergulhou no leito pútrido do Caldo. Levantou-se e voltou, para forçar o punho que emergia da madeira. Filetes de metal formavam um olho, com traços envoltos do cabo fino. Imaginou, por um instante, o quanto deveria valer aquela arma. A lâmina jazia imóvel. Pendurou-se, mas as luvas de couro pingavam o sebo do solo. O cavaleiro se aproximava em furor.

Tentou se despir tarde demais. Ceresso lançou-se sobre o ladrão, rasgando o casaco longo e jogando-o sobre uma carroça, que cedeu. Enfiou a mão pelo cabo e os ornamentos retorcidos do guarda-mão acomodaram-na. Num giro, deslizou a rapieira para fora da madeira, deixando o terceiro olho na cabra de casco. Embainhou-a e chutou a boca do ladrão.

“Os indignos também são dignos da cortesia.”

Não ali, no Caldo, no infame e vil covil dos infames. O homem se escorava na roda lanhada, e limpava a barba cerrada com a manga. Não… um cão pestilento é mais digno que este verme. Desceu o punho cerrado sobre o lábio cortado, manchando mais ainda a camisa clara do homem. Os olhos de Ceresso ardiam em fúria; queria despejar ódio. Extravasaria o asco do Caldo naquela cara suja, escondendo vergonha com brutalidade e deformando os ossos do código que juramentara. Uma prancha desprendeu de cima da porta de três olhos, balançando em pêndulo e em torno de si mesma.

– Rá, agora entendi! – riu em agonia, apontando para a tábua que girava. – O Jabuti-cabra! Que velho filho da puta! – o homem se divertia sozinho, com o beiço inchado e rindo de bater com a mão na própria perna.

O canto das cotovias anuncia a aurora…

Ouviram o sibilar de pássaros. Num último esforço, o homem irrompeu em escape, mas Ceresso o deteve. O cavaleiro bufou por entre os lábios largos, enquanto o ladrão apertou a boca machucada e larga. Os cabelos emaranhavam-se sobre o rosto pálido, e uma falha cor da lua brilhava no bigode. Rugas curtas despistavam a juventude, mas camuflavam as quase quarenta Lavouras. Não sorria mais, e arfava em sobressaltos. A noite clareava. Os olhos cerúleos esbugalharam-se, mas ignoraram Ceresso. Procuravam por outra coisa além, atrás, aos lados, através e acima deles.

– Você não está ouvindo??? – balbuciou, ainda perdido ao redor. – Cara, as Cotovias, elas estão vindo…

***